07/08/2008 às 08h53min - Atualizada em 07/08/2008 às 08h53min

Considerações sobre a Mastite

A mastite, ou mamite, é uma inflamação da glândula mamária, que pode ser causada por microorganismos e suas toxinas, traumas físicos e agentes químicos irritantes, mas, na maioria dos casos, é resultante da invasão de microorganismos patogênicos através do canal do teto. Assim, o termo mastite, quando não especificado, significa infecção da glândula mamária.

A resposta inflamatória que se desenvolve no interior do úbere tem a finalidade de destruir ou neutralizar os agentes infecciosos e suas toxinas, e permitir que a glândula retome a sua produção normal. Entretanto, pode ocorrer também a destruição de células epiteliais responsáveis pela síntese dos principais constituintes do leite (proteína, gordura, lactose), com redução da capacidade produtiva do animal.

A mastite pode se apresentar na forma clínica quando são visíveis alterações no leite (presença de grumos, pús, sangue, leite aquoso), associadas ou não a alterações no úbere (inchado, febril, dolorido). Dependendo do microorganismo envolvido, pode haver comprometimento sistêmico do animal, que pode se apresentar febril, desidratado, apático, e correr risco de vida se não for atendido a tempo. Essa é uma característica da chamada mastite clínica hiperaguda e os sinais se devem mais à ação de toxinas liberadas pelas bactérias do que propriamente à infecção. Outras formas clínicas da mastite incluem a mastite gangrenosa, causada por algumas cepas de Staphylococcus aureus e que se acredita estar associada à deficiência imunológica de alguns animais. Essa forma, assim como outras, como a causada por Bacillus cereus é de difícil tratamento e resulta quase sempre na morte do animal.

Outras infecções, como as causadas pela bactéria Arcanobacterium pyogenes (anteriormente classificada como Corynebacterium pyogenes) e por algas microscópicas do gênero Prototheca, são também de difícil tratamento e, na maioria das vezes, sem chance de recuperação do animal. Algumas infecções causadas por leveduras são igualmente complicadas quanto à terapia, mas, em algumas situações, o animal pode eliminar a infecção sem necessidade de tratamento.

Na maioria dos rebanhos, a forma clínica da mastite é a mais evidente e que maiores preocupações causa ao produtor. Entretanto, a forma mais comum e responsável pelos maiores prejuízos é a subclínica, que alguns especialistas preferem chamar de infecção subclínica.

Nesta, não há alterações visíveis no leite e no úbere. Para sua detecção é imprescindível a realização de testes, para evidenciar a infecção ou a comprovação do aumento do número de células somáticas. Considera-se que, para cada caso de mastite clínica ocorram entre 20 e 50 casos de mastite subclínica.

Aproximadamente 95% das infecções que resultam em mastite são causadas pelas bactérias Streptococcus agalactiae, S. aureus, Streptococcus dysgalactiae, Streptococcus uberis e Escherichia coli. Os outros 5% só são causados por outros microorganismos. Os microorganismos causadores da mastite são comumente classificados em dois grupos: os designados "contagiosos" e os "ambientais" (daí as designações mastite contagiosa e mastite ambiental).


Microorganismos contagiosos

As infecções causadas por esses microorganismos tendem a se apresentar na forma subclínica e a se tornarem crônicas. Eles são disseminados principalmente pelas mãos dos ordenhadores e equipamentos de ordenha, geralmente contaminados a partir do leite de animais infectados. Os rebanhos com mastite contagiosa em geral apresentam altas contagens de células somáticas (CCS). A disseminação dos microorganismos contagiosos entre os animais se dá principalmente durante a ordenha. A desinfecção dos tetos após a ordenha permite reduzir sua disseminação.

O tratamento da vaca ao final da lactação, com antibióticos adequados para o período seco, elimina a maioria desses patógenos. Os principais microorganismos desse grupo são os seguintes:
- Staphylococcus aureus: é um microorganismo encontrado no úbere, na pele e nos pêlos dos animais, em abcessos e feridas, na pele do homem e de vários animais, e em vários outros locais e materiais. Dificilmente é eliminado dos rebanhos, mas pode ser controlado efetivamente com a adoção de procedimentos higiênicos, especialmente durante a ordenha. É moderadamente susceptível a antibióticos quando a infecção é detectada no início. Infecções crônicas (antigas) geralmente são de cura difícil.
- Streptococcus agalactiae: habita o úbere e não sobrevive fora da glândula por longos períodos. É susceptível à penicilina e, uma vez eliminado, não é novamente isolado dos animais, a não ser que vacas infectadas sejam incorporadas ao rebanho.
- Streptococcus dysgalactiae: pode ser encontrado em qualquer ambiente: úbere, pele, rúmen, fezes, currais. Pode ser controlado com medidas adequadas de higiene. Bactérias dessa espécie são moderadamente susceptíveis a antibióticos.
- Mycoplasma bovis: é um microorganismo que ocupa posição intermediária entre bactérias e vírus. Não possui parede celular, como as bactérias, não sendo afetado pela maioria dos antibióticos. Como não existe um tratamento eficaz disponível, o controle desse patógeno se faz evitando sua introdução no rebanho, por meio de animais infectados. Os casos comprovados de infecção por esse agente são raros no Brasil. 

Microorganismos do ambiente

A principal fonte dos microorganismos desse grupo é o ambiente. Eles são encontrados em todos os rebanhos e podem ser recuperados da água, fezes, materiais usados como cama, pele dos animais e várias outras fontes. As infecções tendem a se apresentar na forma clínica aguda e, algumas vezes, na forma hiperaguda, em que se observam febre, perda de apetite, desidratação e, ocasionalmente, morte do animal. Os principais representantes desse grupo são:
- Escherichia coli e outras bactérias do grupo dos coliformes (Klebisella e Enterobacter): são encontradas no trato intestinal de todos os animais e podem ser recuperadas nos dejetos, águas poluídas e em camas de material orgânico (palha, serragem, maravalha, raspas de madeira), contaminadas com fezes.
- Streptococcus uberis e outros estreptococos (que não S. agalactiae): habitam todos os espaços da fazenda, sendo mais freqüentemente isolados das fezes, úbere, pele dos animais, rúmen. Podem ser controlados pela manutenção de úberes sempre secos, ambientes de ordenha limpo e higiene gerais adequada.
- Pseudomonas aeruginosa: habitam ambientes úmidos. 

Freqüentemente são introduzidas na glândula mamária da vaca como resultado de tratamentos intramamários realizados de forma errada. São resistentes à maioria dos antibióticos, mas seu controle pode ser realizado com adoção de bons procedimentos higiênicos.

O diagnóstico da mastite subclínica e o papel das células somáticas

A avaliação da mastite subclínica em animais e nos rebanhos pode ser feita por meio de exames microbiológicos, que permitem identificar a fonte de infecção no rebanho. Pode-se também determinar o padrão de susceptibilidade aos antimicrobianos, o que pode auxiliar na escolha do antibiótico a ser usado na terapia da vaca seca. Outra alternativa para se avaliar a situação da mastite subclínica é a contagem de células somáticas (CCS).

Há várias maneiras de se estimar o número de células somáticas ou de efetivamente contá-las. O método mais simples, conhecido como CMT (sigla de "California Mastitis Test"), é prático, barato, e pode ser realizado ao lado dos animais, fornecendo resultados imediatos. Consiste na observação da reação do leite com um reagente preparado com detergente e corantes que facilitam a leitura do teste.

A desvantagem do CMT é que ele apenas estima o conteúdo de células, de forma subjetiva, o que exige do operador discernimento na leitura e interpretação dos resultados. Outras maneiras de se contar efetivamente as células somáticas dependem de envio de amostras de leite para laboratórios especializados. A CCS pode ser feita em equipamentos automatizados, que possibilita o exame de grande número de amostras e a redução do custo da análise. Outro modo de se contar as células somáticas é pelo exame microscópico de lâminas coradas. Este método serve de referência para os demais, mas é laborioso, caro, e não permite automação.

As células somáticas presentes no leite compreendem: as células epiteliais dos alvéolos (2 a 20% do total), sendo as demais (80 a 98 %) conhecidas como células de defesa (leucócitos, principalmente neutrófilos, linfócitos e macrófagos). Essas células estão geralmente presentes em pequeno número (até 50.000 ou mesmo 100.000 por ml, no úbere sadio), mas em presença de inflamação podem alcançar contagens que alcançam, em alguns casos, vários milhões por ml.

Normalmente se considera que um animal com mais de 250.000 células somáticas tem grande probabilidade de estar infectado.

A taxa de mastite dos rebanhos pode ser estimada com base na CCS, de acordo com estudos realizados em vários países. A interpretação dos resultados é feita considerando-se o possível número de animais infectados e, especialmente, os prejuízos causados pela perda de produção, que pode alcançar 18 % ou mais.


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