25/10/2010 às 09h44min - Atualizada em 25/10/2010 às 09h44min

Leite ainda é promessa na exportação no estado de São Paulo

Folha de São Paulo

A posição de liderança conquistada pelo Brasil no mercado agrícola ainda é uma promessa no leite. 

A valorização do real, o protecionismo que envolve o setor e a própria característica do produto -mais perecível do que as demais commodities- explicam, em parte, a presença tímida do país no mercado internacional. 

O Brasil é o quinto maior produtor de leite do mundo, atrás de União Europeia, Estados Unidos, Índia e Rússia. 

A falta de gestão profissionalizada completa o cenário desfavorável à expansão. Com o predomínio da agricultura familiar, a produção ocorre em baixa escala. 

No Brasil, 1,3 milhão de propriedades mapeadas pelo IBGE produzem 29 bilhões de litros de leite por ano. Os EUA produzem quase três vezes mais -85 bilhões- em menos de 80 mil fazendas. 

"Falta profissionalização e investimento em qualidade. O padrão de exigência no exterior é alto", diz Aline Ferro, pesquisadora do Cepea (Centro de Estudos Avançados em Economia Aplicada, da Esalq/USP) para o leite. 

De janeiro a agosto, o saldo entre exportações e importações de leite e derivados ficou negativo em US$ 106 milhões -o pior resultado para o período desde 2002. "Nossos preços em dólar estão altos", diz Aline. 

Segundo Rodrigo Alvim, presidente da Comissão Nacional de Pecuária de Leite da CNA (Confederação Nacional da Agricultura), os subsídios no setor atingem US$ 49 bilhões por ano. "É difícil ser competitivo com o tesouro da União Europeia." Em todo o mundo, são produzidos cerca de 600 bilhões de litros por ano. Desses, porém, apenas 40 bilhões são transacionados entre diferentes nações. 

Roberto Jank Jr, diretor da Agrindus -segundo maior fabricante de leite tipo A do país-, reclama da tributação. Segundo ele, o IPI sobre a compra de um equipamento básico para ordenha é de 18%. Já a alíquota do Imposto de Importação é de 16%. 


FUTURO PROMISSOR

Apesar do cenário adverso, as vantagens comparativas que levaram o Brasil a uma posição de destaque em todas as outras commodities agrícolas também devem fazer com que o país se torne um dos maiores fornecedores globais de leite. 

Neste ano, a produção brasileira deve aumentar 5%, segundo o USDA (Departamento de Agricultura dos Estados Unidos), ante expansão de 1,7% da média mundial. 

"Não existe país com a disponibilidade de área que nós temos", diz Alvim. 

Além da carga tributária e do câmbio, Alvim diz que o país precisa avançar em acordos sanitários com possíveis importadores. 

O Brasil também terá de enfrentar o setor leiteiro argentino. O país vizinho está decidido a aumentar suas exportações na América Latina e na África, principalmente. 


Programa dá assistência a produtores 
Em três anos, o produtor Joaquim Francisco da Silva, de Pindamonhangaba (156 km de São Paulo), viu sua produção aumentar de 42 litros de leite por dia para 150 litros. 

O salto ocorreu após Silva aderir ao projeto Balde Cheio, da Embrapa (Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária), que mostra como aumentar a produtividade. 

"O objetivo é que o produtor comece a encarar a produção de leite realmente como um negócio, o que não acontece na maioria dos casos", diz o agrônomo Carlos Necesio Santos, da Casa de Agricultura de Pindamonhangaba. 

O produtor Silva afirma ainda que trouxe a experiência de uma carreira na indústria automobilística para dentro da porteira, após a aposentadoria. "Eu olho a minha fazenda como uma empresa", afirma. 

Caminho idêntico fez Dalva Aparecida da Silva, fornecedora da Perdigão. Convidada pela indústria a se profissionalizar, ela aderiu ao Balde Cheio e recebe acompanhamento há cerca de 40 dias. 

Em aproximadamente 15 hectares, Dalva capta cerca de 250 litros de leite por dia. Mas ela desconhece o custo do leite que produz e não adota o controle da alimentação dos animais. 

Tatiana Freitas e Gustavo Hennemann

 


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