17/09/2019 às 09h14min - Atualizada em 17/09/2019 às 09h14min

Oportunidade pela Qualidade: O exemplo poderá vir do leite.

Fernando Pinheiro

Muito tem sido comentado sobre a recessão e a crise na economia mundial, vários setores têm sido alvos de queda de consumo e conseqüentemente, da produção. Neste cenário somos bombardeados a todo instante com notícias de aumentos de juros, impostos e nos índices de desemprego, que são conseqüências diretas do quadro de retração da economia. Sem falar dos mandos e desmandos do nosso governo, mas não vou entrar nesse mérito, pois isto é outra história.

Por outro lado, fico satisfeito em verificar que há muita gente também compartilhando experiências e sabedorias para vencer a crise, tanto no âmbito corporativo como no pessoal. Isso é muito importante para que possamos vencer a tormenta pela qual estamos passando e que não temos muita perspectiva de que será passageira. Sendo assim, vou procurar também contribuir um pouco com essa atitude positiva, utilizando como exemplo o setor que atuo por um bom tempo e que é desconhecido pela maioria, o agronegócio do leite e seus derivados. Espero que o exemplo possa contribuir para outros negócios e principalmente com os trabalhos de colegas desta nobre área.

O leite é um alimento nobre fonte de proteína e energia para os seres humanos. A cadeia produtiva do leite e seus derivados é composta resumidamente por produtores, cooperativas, indústrias, profissionais técnicos e distribuidores. O produtor é o elo inicial da cadeia, aquele responsável não somente pela produção, mas pela obtenção do leite. E isto não significa simplesmente ordenhar o leite de vacas que ficam as pastar felizes pelos campos do nosso interior. Não, a produção moderna de leite envolve muito mais, a começar pela alimentação que é fundamental para a produção e muitas precisam ser suplementadas para atingir índices de produtividade que viabilizem a atividade. Fora o uso de tecnologias de manejo para maximizar o uso de mão de obra e as técnicas de gestão que toda a atividade econômica exige. Seria interessante descrever tudo, mas mudaríamos o tema.

A indústria, outro membro da cadeia, também é muito exigida em termos de produtividade e atendimento das normas para atender as demandas de qualidade e segurança. As grandes empresas comprometidas com a atividade investem cada vez mais na busca por ferramentas para melhores resultados. Não são simples atravessadores, que transformam o leite em derivados. São responsáveis pela captação, logística e beneficiamento, que atualmente representam um custo considerável, sem considerar ainda o preço do leite pago ao produtor. Preço este, que é o principal item considerado pelo produtor para fornecer a um laticínio ou outro. Portanto a competitividade é alta no setor. E o distribuidor, o varejista e demais agentes de venda, também enfrentam sua dificuldades, pois precisam ter o melhor produto, com as melhores condições para atender as expectativas do consumidor e aumentar as suas vendas.

Feito esse breve resumo da cadeia. Para melhorar a contextualização do agronegócio do leite, é preciso explicar um pouco a relação do leite com a economia. Como todo produto de origem animal, o leite possui uma alta elasticidade de oferta e demanda, ou seja, o consumo de leite e derivados está altamente correlacionado com a renda do consumidor. Quando há desenvolvimento econômico e aumento de renda, o leite e seus derivados estão entre os principais produtos a serem procurados pelo consumidor. E infelizmente o contrário também ocorre de forma rápida, sendo assim, quando a renda diminui, o leite e seus derivados estão entre os produtos que passam a ser substituídos. Um exemplo simples é aumento de consumo de leite e derivados que ocorreu na China com a abertura e o desenvolvimento da economia, e o mesmo aconteceu no Brasil com as melhorias advindas do plano Real, é só observar como o consumo aumentou, principalmente para derivados com o iogurte. Conseqüentemente, a produção aumentou, assim como a captação e o setor como um todo. Evidentemente que nem tudo são flores, como toda matéria prima, o leite tem seus momentos de preços elevados e baixas.

Estamos em daqueles momentos desfavoráveis economicamente para o setor. O mundo e o Brasil vinham de períodos de forte demanda de produção e bons preços, com isso o setor primário vinha investindo em aumento de produção, e a mesma ocorreu, no Brasil a produção vem aumentando ano a ano, pelo menos nos últimos dez anos. Sendo assim, o mundo está abastecido de leite. Por outro lado, o mundo está em recessão e o Brasil, nem se fala. O consumidor está espremido pela inflação, pelo aumento de tarifas e o desemprego subindo, ou seja, o poder de compra e a renda estão com tendência de queda. Portanto, o consumo de leite e derivados diminui, por mais que o consumidor tente não deixar de comprar, o fato é que o consumo diminui. E isso tudo em um momento que o mercado está abastecido, conseqüentemente o preço ao produto diminui e a insatisfação aumenta. Falei que diria oportunidades e ainda não o fiz, eu sei, vamos chegar lá.

Em momentos como esse, a busca por eficiência e mercados é essencial para a perseverança na atividade. É aí que a qualidade vem para trazer as oportunidades. Muitas vezes os produtores enxergam a qualidade somente como a melhoria de parâmetros nas análises do leite. Outros enxergam Boas Práticas somente como exigências a serem atendidas para melhorar o preço pago pelo laticínio.

Poucos entendem que as ferramentas da gestão da qualidade são importantes para a obtenção de um produto seguro, mas que também contribuem para melhorar a eficiência e a rentabilidade da atividade, não porque implicam em um preço melhor pelo produto, mas também porque racionalizam o consumo de insumos, melhoram o desempenho de animais, melhoram o aproveitamento da mão e de obra e diminuem as perdas e os impactos no meio ambiente.  Se isso não for suficiente, um produto de qualidade superior e reconhecidamente seguro tem maiores chances de sobressair em um mercado concorrido, plenamente abastecido.

E em meio às más notas do nosso governo, um ministério resolveu dar o exemplo. O Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento lançou um programa para as indústrias fomentarem programas de desenvolvimento dos produtores em técnicas de gestão e qualidade. Este programa está baseado no uso de recursos ligados ao PIS/COFINS e poderão ser destinados a empresas que apresentarem programas consistentes de educação ao produtor. E esses programas precisarão atender os objetivos de desenvolvimento gerencial da atividade, bem como serem promotores da melhoria da qualidade e segurança do leite. O Ministério que acabar com a imagem negativa do setor.

E a aplicação de ferramentas e conceitos de gestão da qualidade são as melhores oportunidades que o agronegócio do leite possui para vencer esse momento de dificuldade. Ao investir na aplicação destas ferramentas o setor se tornará mais competitivo, assim como outros setores da indústria brasileira já o são. O setor passará a ser mais competitivo, ao contrário do que é hoje e possuirá um produto capaz de competir com preço e qualidade em qualquer certame mundial.

O governo neste caso, de maneira correta, está dando ao setor uma forma de através da gestão da qualidade, se tornar mais forte, competitivo e respeitado. Em um momento de crise a qualidade, ou melhor, a gestão da qualidade e com qualidade, se torna a grande oportunidade para a cadeia produtiva do leite. Este exemplo precisa ser seguido por outros setores das indústrias e de serviços. Todos ganham quando trabalhamos focados na qualidade e nos resultados.

Autor: Fernando Pinhiro é
 Analista Técnico Econômico Agropecuário - GTEC na Organização das Cooperativas Brasileiras (OCB)

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