05/01/2017 às 11h48min - Atualizada em 05/01/2017 às 11h48min

A importância do consumo de leite no atual cenário nutricional brasileiro - Parte III

Olga Maria Silverio Amancio e outros
Sociedade Brasileira de Alimentação e Nutrição
3. A IMPORTÂNCIA DO CONSUMO DE LEITE NAS DIFERENTES FASES DA VIDA
A importância do consumo de leite e derivados em todas as fases da vida se evidencia pelas características intrínsecas de sua composição nutricional, com destaque ao teor de cálcio e proteínas de alta qualidade.

3.1 Efeitos sobre a saúde óssea e muscular
A ingestão de leite e derivados tem sido associada à melhora da densidade óssea e seu consumo é recomendado para promover a boa saúde deste tecido, uma vez que seus nutrientes influenciam positivamente na produção e na manutenção da matriz óssea (FAO, 2013). O ganho de massa óssea depende de fatores que se inter-relacionam, desde as concentrações de hormônios circulantes que agem nos processos de calcificação; do sexo, raça e de fatores genéticos e de aspectos nutricionais como a ingestão adequada de cálcio e vitamina D, sintetizada por meio da ingestão e exposição aos raios solares, que atua no controle da absorção intestinal de cálcio (FAO, 2013).

O tecido ósseo desenvolve-se intensamente na infância. Na segunda década de vida, os adolescentes incorporam 40% de massa óssea e acumulam, até a fase tardia da puberdade, 92% de sua massa óssea final. O incremento mineral ósseo é de extrema importância por ser responsável pela integridade estrutural do esqueleto, que por sua vez, é o maior reservatório corporal de cálcio e fósforo, na ordem de 99% e 90%, respectivamente (Buzinaro et al., 2006; Bueno e Czepielewski, 2008). Uma dieta insuficiente nesses nutrientes pode influenciar de maneira negativa a formação do esqueleto e prejudicar o processo de crescimento (Bueno e Czepielewski, 2008).

A puberdade destaca-se como período fundamental para a aquisição de massa óssea. Sabe-se que a densidade mineral óssea (DMO) na vida adulta depende do pico de massa óssea alcançada durante o crescimento. Por sua vez, a baixa DMO é o principal fator de risco para a osteoporose. Assim, também na adolescência, a ingestão adequada de cálcio e fósforo é fundamental para o alcance do pico da massa óssea e para a manutenção da integridade do esqueleto com a consequente prevenção da osteoporose e redução do risco de fraturas na vida adulta (Veiga et al., 2013; Rizzoli et al., 2010). Durante essa fase da vida, a mineralização encontra-se aumentada, com taxas de formação óssea superior às de reabsorção (Silva et al., 2004).
A osteoporose, doença mais relacionada à falta de cálcio, é uma etapa natural do envelhecimento na qual os ossos tornam-se frágeis e suscetíveis a fraturas. Embora atinja homens e mulheres, ela predomina em indivíduos do sexo feminino com deficiência estrogênica e nos idosos (Wimalawansa, 1995). Mulheres após a menopausa apresentam maior chance de balanço negativo de cálcio, pois, nessa fase, observa-se a redução de estrógeno e grande prevalência de deficiência de vitamina D (Marucci et al., 2007). Com o passar da idade, a absorção de cálcio declina, seja por essa diminuição endógena na produção de vitamina D, seja pela menor ingestão dietética (Buzinaro et al., 2006). Portanto, a ingestão adequada de cálcio na dieta deve ser incentivada.

Os efeitos do consumo de leite sobre a saúde muscular também têm sido discutidos, devido ao seu alto teor de proteínas de alta qualidade, como a caseína e as contidas no soro do leite. Em particular, o whey protein, tem demonstrado efeitos promissores em vários aspectos de saúde, como no ganho de massa muscular, no controle da obesidade e diabetes mellitus tipo 2, podendo-se especular que estes últimos resultados se referem ao efeito sobre a saciedade desempenhada pelas proteínas presentes no de soro de leite (Bendtsen et al., 2013). As proteínas do soro do leite têm um teor elevado de aminoácidos essenciais de cadeia ramificada (BCAA), em particular a leucina, o que, provavelmente é o motivo pelo qual é atribuído a esse aminoácido a eficiência na síntese de proteínas como um todo e em específico de massa muscular por ativar vias anabólicas neste tecido (Bendtsen et al., 2013; Pereira, 2014). Na gestação ocorrem mudanças no metabolismo de cálcio que favorecem a transferência desse elemento para o feto (Buzinaro et al., 2006). Baixos níveis de ingestão de cálcio têm sido associados ao aumento do risco para o desenvolvimento de hipertensão, principalmente em mulheres grávidas (Appel et al.., 1997).
 
3.2. Potenciais efeitos do consumo de leite sobre a prevenção de doenças crônicas Estudos populacionais têm demonstrado que o consumo de leite e derivados estão associados a um menor risco de desenvolvimento de síndrome metabólica, hipertensão, doenças cardiovasculares e certos tipos de câncer, como o de cólon (Goldbohm et al., 2011; Kaluza et al., 2010; Warensjo et al., 2010). Até então a principal preocupação em relação à possível influência negativa do consumo de leite no que se refere às doenças do coração deve-se ao seu teor de gorduras saturadas (70% das gorduras totais) (Pereira, 2014). O mecanismo frequentemente proposto para que a gordura saturada esteja associada ao maior risco destas doenças refere-se ao aumento dos lipídios sanguíneos, especialmente colesterol total (CT) e lipoproteínas de baixa densidade (LDL-colesterol) (Siri-Tarino et al., 2010). No entanto, descobertas recentes indicam que a maioria dos estudos observacionais não conseguiu encontrar associação entre a ingestão de produtos lácteos e o aumento do risco de doença cardiovascular, doença cardíaca coronariana e acidente vascular cerebral, independentemente dos níveis de gordura do leite. Os resultados de estudos de intervenção sobre biomarcadores de doenças cardiovasculares indicaram que uma dieta rica em gorduras saturadas, provenientes do leite e da manteiga, levou ao aumento do LDL-colesterol, porém, somente quando substituída por carboidratos ou ácidos graxos insaturados. Entretanto, ela também ocasionou o aumento das lipoproteínas de alta densidade (HDL-colesterol) o que, consequentemente, pode não afetar ou mesmo reduzir a razão CT/HDL (Huth e Park, 2012; Jakobsen et al., 2009).

Uma meta-análise com 17 estudos prospectivos apontou modesta associação inversa entre o consumo de leite e o risco de doenças cardiovasculares em geral, porém nenhuma associação significativa desta ingestão com o risco de acidente vascular cerebral ou doença arterial coronariana (Soedamah-Muthu et al., 2011). Contudo, por precaução, formulações com teor reduzido de gordura devem ser consideradas especialmente em populações com maior risco de doenças cardiovasculares (Pereira, 2014), como os leites semidesnatados, que apresentam entre 0,6% e 2,6% de gorduras totais ou os desnatados que possuem no máximo 0,5% de gorduras lácteas totais.

Há ainda um modesto efeito anti-hipertensivo oriundo de peptídeos gerados na hidrólise enzimática das proteínas do soro do leite, uma vez que estes atuam na inibição da enzima conversora de angiotensina (ECA), conhecida por sua ação fundamental na redução da pressão arterial por meio do sistema renina-angiotensina-aldosterona, influenciando, assim, de maneira positiva na saúde cardiovascular (Pereira, 2014; Souza et al., 2012). Vários estudos incluindo meta-análises têm consistentemente encontrado que o consumo de três ou mais porções diárias de laticínios está inversamente associado com o risco de elevada pressão arterial (Larson et al., 2009; Hilpert et al., 2009; Sonesttedt et al., 2011; Huth e Park, 2012) .
 
O Estudo de Rotterdam encontrou redução de 20% na incidência de hipertensão associada à ingestão de produtos lácteos (Engberink et al., 2009), além de a combinação do cálcio, fósforo e potássio ter se revelado essencial para o controle da pressão arterial (Massey, 2001). Esse balanço de nutrientes provavelmente explica a razão pela qual o leite mostra-se superior na redução do risco de hipertensão quando comparado ao uso de suplementos minerais (Griffith, 1999), já que estes podem causar vários efeitos adversos, como nefrolitíase, síndrome de hipercalcemia, além da interação negativa com outros nutrientes (IOM, 1997).
 
De fato, os laticínios são frequentemente apontados como importantes componentes da dieta. O estudo DASH (Dietary Approach to Stop Hypertension) cuja abordagem dietética é utilizada no tratamento e prevenção da hipertensão indica o consumo diário de leite desnatado e outros produtos lácteos como adjuvantes do controle da pressão arterial, juntamente com as frutas, vegetais, oleaginosas e peixes preconizados por este padrão alimentar (Bazzano et al., 2013, Appel et al., 1997).

 
3.2.1. Diabetes Mellitus tipo 2
As proteínas presentes no soro do leite têm se mostrado capazes de promover um pequeno aumento da liberação de insulina pelas células pancreáticas, denominado “efeito insulinotróico” (Souza et al., 2012; Bendtsen et al., 2013). Este modesto incremento da concentração de insulina no sangue contribui para a melhora da sensibilidade à insulina e melhora do controle glicêmico ao longo do dia, auxiliando no controle medicamentoso do diabetes mellitus tipo 2 (Souza et al., 2012; Bendtsen et al.; 2013). A meta-análise de Tremblay e Gilbert (2009) mostrou relação inversa entre o consumo de lácteos com o risco de diabetes do tipo 2, particularmente entre aqueles que consomem laticínios desnatados. Sugere-se que as proteínas do soro do leite associadas ao cálcio, à vitamina D, aos ácidos graxos de cadeia média e à lactose desempenhem papel protetor na melhora da sensibilidade à insulina.

3.2.2. Gerenciamento de peso
A relação entre o consumo de alimentos fonte de proteína, como o leite, e o gerenciamento do peso baseia-se na liberação de hormônios que estimulam a saciedade, no efeito térmico envolvido na digestão destes alimentos e na melhora da composição corporal. Estes três fatores que explicam a relação entre o consumo de proteínas e o gerenciamento de peso estão descritos a seguir:

Uma vez que os produtos lácteos são uma importante fonte de proteína da dieta, alguns estudos têm mostrado efeitos promissores entre o consumo de leite e derivados e seu efeito no gerenciamento do peso corporal (AbargoueI et al., 2012; Chen et al., 2012). Aos efeitos supracitados, soma-se também o estímulo à lipólise favorecida pelo cálcio, mineral presente em teor considerável no leite (240 mg/200 mL).
 
Desse modo, as vantagens bem conhecidas do cálcio e das proteínas presentes no leite que contém aminoácidos de cadeia ramificada, contribuem para a manutenção da massa óssea e muscular, durante o processo de perda de peso (Layman et al., 2009; Jacques e Wang, 2014; Martinez-Gonzales et al., 2014). Importante ressaltar que, em casos em que se faz necessário controle de peso corporal, recomenda-se optar pelo consumo de leite com teor reduzido de gorduras como o semidesnatado (0,6% a 2,9% de gorduras totais) ou desnatado (até 0,5% de gorduras totais).

1. PROTEÍNA E SACIEDADE: a ingestão de proteínas pode contribuir para o aumento da saciedade por meio da liberação dos hormônios GLP-1 (glucagon-like-peptide-1) e colecistoquinina. Estes hormônios atuam na redução do apetite, e, consequentemente, na diminuição da ingestão alimentar, reduzindo assim o consumo calórico diário podendo auxiliar no controle do peso corporal (Fuhrman et al., 2010; Westerterp-Plantenga et al., 2012).

2. EFEITO TÉRMICO DA DIGESTÃO DE PROTEÍNAS: o efeito térmico dos alimentos representa de 5-10% do gasto energético total diário. As proteínas possuem o maior efeito termogênico (20-35%) induzido pela alimentação quando comparadas aos carboidratos (5-15%) e as gorduras (0-5%). Assim, embora este efeito em gasto calórico pela digestão de proteínas seja modesto, o consumo de alimentos fonte neste nutriente pode contribuir para o gerenciamento de peso (Westerterp et al., 1999; Ekmekcioglu e Touitou, 2011).

3. PROTEÍNAS E COMPOSIÇÃO CORPORAL: dietas com restrição calórica, comumente adotadas na perda de peso, apresentam risco maior para a perda de massa muscular. A ingestão de proteínas pode ter efeito protetor para a massa magra durante este processo (Guillet et al., 2012; Pasiakos et al., 2013).

3.3. Efeitos do consumo de leite sobre a hidratação

Devido a sua composição nutricional, o leite de vaca tem sido usado como alternativa natural às bebidas comumente empregadas na nutrição esportiva a fim de auxiliar na performance, recuperação muscular pós-exercício e ganho de massa muscular em indivíduos fisicamente ativos e atletas, uma vez que as proteínas do soro do leite dispõem de teores consideráveis de leucina (Pegoretti et al., 2015).
 
Os benefícios do consumo de leite são atribuídos à presença de água, eletrólitos (como sódio e potássio), carboidratos (4% a 5%, proporção semelhante à encontrada nos isotônicos), proteínas e ao fato do leite apresentar maior tempo de esvaziamento gástrico. Além disso, o cálcio presente desempenha papel importante na contração muscular e, a vitamina D, na mineralização óssea (Pegoretti et al., 2015). Além disso, o leite é uma opção de bebida a ser consumida como forma de incrementar os índices de hidratação, principalmente de idosos que possuem aumentado risco para desidratação.

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