07/12/2015 às 14h26min - Atualizada em 07/12/2015 às 14h26min

Queijo prato com um toque a mais

Guilherme Arêas
Jornal Tribuna de Minas

Pesquisa do ILCT incorpora a luteína, um corante bioativo, capaz de ajudar na prevenção de doenças da visão

Mais do que um alimento saboroso e acompanhamento ideal para sanduíches e saladas, o queijo prato, o segundo mais consumido no Brasil, atrás apenas da mozarela, pode ser um aliado da saúde. Pelo menos é o que pretende a Empresa de Pesquisa Agropecuária de Minas Gerais (Epamig), por meio do Instituto de Laticínios Cândido Tostes (ILCT), ao realizar uma pesquisa que testou o uso de corantes bioativos na produção do queijo prato. A proposta do órgão é substituir o tradicional corante de urucum por um feito com luteína. Trata-se de um carotenóide com propriedades antioxidantes que ajuda na prevenção de doenças da visão, como degeneração macular relacionada à idade, a principal causa de cegueira entre idosos, além da catarata e da retinopatia relacionada à diabetes.

“Fizemos o queijo, substituindo o corante de urucum pela luteína, e verificamos que não mudou qualquer característica, como cor e sabor. E ainda conseguimos reter 6mg de luteína em cada 100g de queijo”, explica a pesquisadora Denise Sobral, que coordenou o estudo. No teste feito com consumidores comuns, ela relata que os participantes também não notaram qualquer diferença entre o queijo à base de corante de urucum e o substituto.

Conforme Denise, a luteína já é vendida comercialmente como corante bioativo – aqueles com propriedades benéficas à saúde, mas ainda é um produto mais caro. “Acredito que a substituição poderia encarecer o produto final em torno de 30%, mas as empresas ainda não utilizam o corante de luteína em abundância. Se usassem, o preço poderia cair.”

Com o sucesso da pesquisa, a Epamig/ILCT pretende agora incentivar as empresas a adotarem a luteína como corante. “Não pedimos o depósito de patente. Se alguma empresa se interessar, disponibilizamos a tecnologia. Inclusive, nos artigos que estamos publicando já colocamos o passo-a-passo de como realizar o procedimento”, explica Denise.

Apesar de fundamental para a saúde, a luteína não é produzida pelo organismo. A obtenção desse carotenóide deve se feita, portanto, por meio da alimentação. A substância é encontrada em folhas verde-escuras, como a couve e o brócolis, e em vegetais amarelo-alaranjados, como a cenoura e o tomate.

“A luteína protege a maior parte dos tecidos oculares, principalmente os neurônios da retina, principais responsáveis pela visão”, explica a oftalmologista Dayana Kneipp. A médica explica, no entanto, que a luteína deve ser consumida como fator de prevenção às doenças oculares. A título de comparação, inserir a luteína no queijo prato seria como a água que recebe o flúor para evitar cáries. “Com a doença já instalada, a luteína não tem benefícios tão comprovados como na fase de prevenção.”

Três anos de estudos

O projeto desenvolvido na Epamig/ILCT foi financiado pela Fundação de Amparo à Pesquisa de Minas Gerais (Fapemig). Durante três anos, os pesquisadores fabricaram o queijo prato com luteína e realizaram análises para verificar grau de absorção da substância bioativa no queijo, composição, textura, microbiologia e coloração do produto, comprovando que a luteína não altera as características do produto final.

A pesquisa com aplicação de corantes bioativos em queijo prato foi um dos 70 projetos selecionados para a Inova Minas Fapemig, que aconteceu em novembro. O evento tem o objetivo de mostrar às pessoas o quanto a ciência faz parte da vida delas, apresentando soluções para melhorar o dia a dia. Além desse projeto, a Epamig teve outro estudo selecionado: reuso da água no processamento de café, desenvolvido pelos pesquisadores Sammy Soares e Sérgio Donzeles.


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