26/05/2014 às 13h03min - Atualizada em 26/05/2014 às 13h03min

O prazo de validade dos iogurtes!

Anos atrás, estava com um grupo de amigos, numa tasquinha, a ver o jogo do Campeonato do Mundo de futebol da época, talvez em 1994, quando alguém pediu qualquer coisa para petiscar e foi servido um suculento prato de sardinhas em lata, embrenhadas com molho de tomate, mais umas carcaças, o que achámos ótimo e bastante saboroso. Já íamos na quinta ou sexta lata e na quinta ou sexta cerveja, quando alguém se lembrou de ver a data de validade das latas - e eis que foi a surpresa geral - incluído o nosso amigo tasqueiro: válido até Set/1986 !! Isto é, 8 anos!! Tínhamos digerido meia dúzia de sardinhas em lata com molho de tomate, cujo prazo tinha expirado há 8 anos!! Como era possível? Rimos imenso do achado, com algum nervosismo à mistura e depois alguém descansou: - O que não mata, engorda! ... e ficou tudo bem - até à data - em "águas de bacalhau", como se costuma dizer! 

Hoje em dia, ninguém faz compras sem olhar aos prazos de validade e recordo o exemplo da secção de iogurtes do supermercado. Iogurtes, que sempre foram a primeira referência de produto alimentar com curta validade de utilização, e que nos obriga automaticamente verificar a data. E a propósito deles, quantas vezes se come fora do prazo - para não deitar no lixo - olhando e cheirando antes de meter a colher?

Partimos assim do princípio que tudo tem prazo de validade: alimentos, utensílios, também as pessoas... tudo tem prazo para ser útil, tem limites de existência, tem prazo para estar ao serviço naquilo para que foi concebido. Mas, depreende-se também que não ser útil ou perder a validade para uma função não significa não poder ser útil noutra função, recuperando a validade. 

Passo a explicar: um vinho branco "passado" não se bebe, mas serve para condimentar em manipulação culinária; um bancário com 67 anos de idade e 49 de banco, um pouco farto e cansado do seu trabalho, já menos produtivo, pode reformar-se e passar a ser útil no 'staff' diretivo de um clube desportivo, e sentir até um certo rejuvenescimento com essa novíssima ocupação. Mas, dizia eu, que tudo tem prazo de validade e que pode até ser eterno: a Amália Rodrigues é definitivamente a nossa rainha do Fado, como o rei Eusébio será monarca, mesmo após a sua morte! E assim, o prazo de validade não termina para "aqueles que - segundo o eterno poeta - por obras valorosas, se vão da lei da morte libertando"!

Com esta livre circulação comercial e industrial, recebemos produtos importados dos países mais diversos, alguns de marca registada e sobejamente conhecidos, outros que entram nos mercados só pelos preços competitivos, e de que desconhecemos a sua identificação, mas nuns e noutros quase não questionamos a validade e o tempo de duração. E passo a citar exemplos: uma lâmpada de baixo consumo e longa duração tem escrito no invólucro - Duração: 8 anos! Custa caro comprá-la, mas é por 8 anos! Será? 



Alguém regista as datas da validade desta lâmpada elétrica para mais tarde reclamar? Uma embraiagem de um automóvel - mesmo dentro do período de garantia - é considerado um consumível e pode avariar em poucos minutos ou até segundos, e a fábrica não assume a reparação! Existem peças fundamentais de um automóvel em que não se prevê o seu desgaste ou o seu tempo de utilização? E, como estes, deve haver mil e um exemplos...

Na Europa, o governo sueco prepara-se para aumentar substancialmente a idade de reforma, isto é, aumentar o prazo de validade da população laboral sueca, e os números apontam para os 70 e tal anos; não é surpresa no país em causa, e poderá servir de exemplo...!Para outros países da Europa, enquanto num outro país assistimos ao inverso: corrida às reformas, com algum facilitismo para as reformas antecipadas, baixas e atestados de natureza incerta para invalidez prematura, como forma de renovação laboral e como solução para alguns "incómodos" em empresas debilitadas. 

E, a este propósito, não sei mesmo se a data da reforma deva ser indexada à idade, quando seria mais lógico e rentável para qualquer estado ou empresa que fosse justificada pela produtividade. 

E haveria, então sim, prémios para quem se reformasse mais tarde, desde que fosse económica e fisicamente enquadrável. É importante pensar no desemprego galopante, mas também avaliar a produtividade de quem está a trabalhar para poder reorganizar qualquer economia.

Durante décadas assistimos a medidas e atitudes que nos levaram por caminhos errados, como hoje estamos verificando, e que nada têm a ver com a crise instalada. No meu entender, tem a ver com prazos de validade expirados, em várias áreas, de várias origens, seja em pessoas, seja em decisões, e muito particularmente em leis, daí resultando não se conseguir substituir o que está caduco ou desatualizado e assim prejudicial na modernização do país. 

Ao mesmo tempo, não se impede - e até se fomenta - a fuga de "quadros", de competências, de jovens promissores, que muito têm para dar e que muita falta nos irão fazer.

E, voltando aos iogurtes, estes são para utilizar até à data! Outros e outras, sejam pessoas ou coisas - para nosso bem - têm de durar enquanto puderem ser úteis, ... enquanto estiverem dentro do seu prazo de validade




Autor: Jerónimo Marreiros

Referências bibliográficas: 

PT Comunidades - De olho na validade

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