21/04/2014 às 12h44min - Atualizada em 21/04/2014 às 12h44min

O uso de métodos de identificação da mastite na tomada de decisão de controle e tratamento

 

 



















A definição de estratégias para controlar a mastite e alcançar índices ideais para produção de leite com elevado padrão de qualidade só é possível pela identificação da existência do problema, da dinâmica de infecção presente e dos agentes causadores de mastite em cada propriedade. Desta forma, é essencial o uso de ferramentas de diagnóstico da mastite no rebanho.

Vários métodos de diagnóstico podem ser empregados com o intuito de acompanhar a dinâmica da infecção no rebanho. Geralmente, a mastite clínica é detectada por observações visuais dos próprios ordenhadores sobre condições anormais do leite e /ou do úbere das vacas através do teste da caneca de fundo escuro. Nesse teste, é detectada a presença de grumos e/ou anormalidades no úbere. O California Mastitis Test (CMT) e a Contagem de Células Somáticas (CCS) são métodos empregados para o diagnóstico da mastite subclínica, na qual há infecção da glândula mamária, mas não há alteração visível no leite. A forma e frequência de realização e a organização dos dados provenientes desses métodos de diagnóstico são fundamentais para gerar informações úteis aos veterinários e proprietários de rebanhos no intuito de inferir sobre a real situação da fazenda. Esses dados, por consequência, podem auxiliar na correta tomada de decisão na resolução dos problemas eventualmente enfrentados.





 

 


 Presença de grumos no teste da caneca de fundo escuro, mostrando um teste positivo para mastite clínica

Contagem de Células Somáticas do Tanque

As células somáticas presentes no leite são compostas por células da descamação do tecido mamário e leucócitos provenientes da circulação sanguínea. Em um quarto infectado, aproximadamente 99% das células presentes são células de defesa, que têm a função de combater agentes infecciosos e participar dos processos reparatórios da glândula após o término da infecção, e 1% são células da descamação. A Contagem de Células Somáticas pode ser mensurada em diferentes níveis, porém a CCS do tanque de expansão e a CCS individual do animal são as formas mais frequentes e necessárias para o acompanhamento do status infeccioso dos rebanhos.

A CCS do tanque é a referência mais comum para identificação de problemas de mastite. Geralmente, a CCS do tanque pode ser considerada como bom parâmetro para detecção de problemas de mastite (Tabela 1).

Tabela 1. Prevalência estimada de infecção e perdas na produção de leite associadas à alta contagem de células somáticas do tanque de expansão*.




 

 


1Perda de produção calculada como porcentagem da produção esperada a 200.000 cél. / mL.

CCSTQ = contagem de células somáticas do tanque de expansão. *Fonte: NMC, 1987.

No entanto, a CCS de tanque é influenciada pela CCS e produções individuais, e pode ser considerada somente como um indicativo de mastite subclínica, sendo que, seus valores, geralmente, agregam pouco para definição do real problema no rebanho. É muito difícil para o proprietário ou o consultor técnico reconhecer problemas emergentes de mastite mediante os aumentos lentos ou esporádicos da CCS de tanque. No entanto, análises semanais da CCS do tanque podem ser utilizadas como ferramenta para auxiliar nessa identificação, podendo ser utilizada como forma de monitoramento.

Contagem de Células Somáticas individual




 

 


 Frascos para coleta de amostra de leite para contagem eletrônica de células somáticas e teste de CMT

O diagnóstico da mastite subclínica pode ser realizado pelo isolamento do agente infeccioso da glândula ou através da verificação da reação inflamatória advinda da infecção. Em acompanhamentos epidemiológicos, a fácil execução do método diagnóstico e o custo acessível são de grande importância para permitir que avaliações rotineiras sejam realizadas. Nesse contexto, a CCS individual se torna um poderoso aliado!

O CMT é um método fácil e confiável para o diagnóstico de mastite subclínica. O reagente CMT é, simplesmente, um detergente associado a um indicador de pH (púrpura de bromocresol). O nível de reação entre o detergente e o DNA nucléico das células é a medida do número de células somáticas no leite. A relação entre os valores de CCS e CMT não é precisa, devido ao alto grau de variabilidade de valores de CCS para cada escore de CMT (Tabela 2). A reação de CMT deve ser lida dentro de 15 segundos após a mistura do leite com o reagente, pois reações fracas desaparecem com o tempo.

Frequentemente, ao se realizar o CMT em uma fazenda, determina-se o escore 2 como animal suspeito e o 3 o animal com infecção. Entretanto, observando na tabela 2 e tendo como infectado o animal que apresente CCS > 250.000cels./ml, o resultado “traço” já determina que o animal esteja infectado.

Tabela 2. Relação entre contagem de células somáticas e escore de CMT.*




 

 


É um teste eficiente quando se deseja um diagnóstico imediato. No entanto, tem como limitações a elevada demanda de tempo e necessidade de um profissional capacitado para execução. Dessa maneira, torna-se um método relativamente caro e de difícil operacionalidade.

O CMT é recomendado nas seguintes situações:

1. Detecção de mastite subclínica em vacas recém adquiridas de outros rebanhos;

2. Determinação de qual quarto mamário se encontra infectado, quando a vaca apresenta alta CCS na amostra composta de leite, pelo método de contagem eletrônica;

3. Detecção periódica da mastite subclínica do rebanho, quando não for possível realizar a contagem eletrônica de células somáticas;

4. Avaliação da mastite subclínica após o parto (a partir da segunda semana) para identificar infecções relacionadas com o período seco e avaliar a eficácia do tratamento de vacas secas ou manejo no pré-parto.

Equipamentos de contagem eletrônica de células somáticas permitem a análise rápida e em grandes volumes de amostras. O custo relativamente acessível dessa análise permite que criadores façam o acompanhamento individual dos animais, gerando informações essenciais para um eficiente programa investigativo. Para isso, a análise deve ser realizada mensalmente nas propriedades.

A amostra composta dos quatro quartos de cada vaca deve ser enviada ao laboratório especializado. Através dessa análise não é possível detectar qual teto está afetado e pode ocorrer também o efeito de diluição. Isso ocorre porque apenas um teto pode estar afetado e os outros três não, diluindo assim a contagem de células somáticas do teto com infecção. A contagem eletrônica é um método bastante utilizado, prático e eficiente, por se tratar de uma análise direta da contagem de células somáticas e não uma análise indireta como o CMT.

Ações específicas para cada tipo de agente

As mastites podem ser classificadas quanto ao tipo de bactéria em dois grupos: contagiosa, causada principalmente por Staphylococcus aureus e Streptococcus agalactiae, e ambiental, causada pelos coliformes (E. coli, Klebsiella, Enterobacter e outros) e Streptococcus ambientais (S.uberis, S.dysgalactiae).

A mastite contagiosa caracteriza-se por apresentar-se principalmente na forma subclínica, tendendo a tornar-se crônica, ou seja, a CCS, geralmente, apresenta valores acima do considerado como infecção por no mínimo 2 meses consecutivos. É transmitida de um animal para outro durante as ordenhas. Medidas como o pós-dipping, tratamento de vacas secas, segregação e descarte de vacas portadoras de mastite crônica, são necessários para seu controle.

A mastite ambiental apresenta-se geralmente na forma clínica, podendo ocasionar alterações como úbere inchado, febre, falta de apetite e levar o animal a óbito. Em uma dinâmica de infecção por patógeno ambiental, as novas infecções e a cura espontânea são elevadas. Assim, a CCS será utilizada para se obter as taxas de novas infecções e de vacas curadas. A contaminação ocorre entre as ordenhas e medidas como o pré-dipping e ambiente adequado na área de permanência dos animais, são importantes para seu controle. 

É fundamental, portanto, para determinação de práticas de controle, a identificação das bactérias causadoras de mastite, permitindo que as ações sejam direcionadas de forma específica para cada rebanho. Para tanto, é preciso que seja realizada a análise microbiológica do leite, podendo ser feita no tanque ou individualmente (foto abaixo). A coleta de amostra de leite de tanque durante 3 dias consecutivos aumenta a confiabilidade na determinação dos patógenos envolvidos na qualidade do leite de cada rebanho.




 

 


Coleta de amostra individual de leite para análise microbiológica 

A identificação de elevada prevalência de bactérias contagiosas (Staphylococcus aureus e Streptococcus agalactiae), significa que a rotina de ordenha, provavelmente, não está adequada. Vacas infectadas por Staphylococcus aureus devem ser os últimos animais a serem ordenhados, realizando assim a segregação de vacas portadoras desse patógeno. O objetivo principal dessa medida é limitar a transmissão da doença. A taxa de cura desta bactéria, com tratamento antibiótico, é sempre muito baixa. Dos animais tratados, geralmente menos de 50% são curados. Assim sendo, os animais portadores devem ser segregados e posteriormente descartados.

No caso de Streptococcus agalactiae, é possível ficar livre dessa bactéria no rebanho com o uso de antibióticos em animais em lactação. Elevada taxa de cura, acima de 90%, pode ser alcançada com o uso de antibióticos, conhecido como Blitz Terapia, que consiste no tratamento durante a lactação de todos os animais positivos. 

Se o exame de laboratório revelar a ocorrência de mastite ambiental, é preciso focar é na melhoria do ambiente em que os animais permanecem. É necessário percorrer as instalações, piquetes, observar se há acúmulo de barro, camas com umidade elevada e acúmulo de fezes. Com a melhoria das condições de ambiente e critérios adequados de higiene pré-ordenha e o uso do pré-dipping, reduz-se consideravelmente a ocorrência dessas bactérias.

Para a mastite causada por coliformes, uma boa opção de controle, evitando quadros graves da doença, é a vacinação do rebanho. A imunização contra mastite causada por coliformes pode reduzir a duração, severidade de sinais clínicos e a reincidência nos primeiros 100 dias de lactação e aumentar a taxa de cura espontânea, embora não previna a ocorrência de infecções. O uso desta prática deve ser avaliado pelo veterinário responsável pelo rebanho. 

Na mastite causada por Streptococcus uberis, a maior prevalência observada ocorre quando os animais se deitam em piquetes muito contaminados com esterco seco. Em sistemas de freestall isso pode ocorrer quando não se preocupa com a origem da areia e com a adequada reposição da mesma. Assim, medidas como a retirada do esterco seco e o uso de areia de origem conhecida e de boa qualidade e com reposição periódica, são medidas que auxiliam no controle deste microrganismo.

Importância dos métodos de diagnóstico

P
ara uma correta atuação na prevenção e controle da mastite dentro de um rebanho, a identificação da existência de problemas e a correta definição desses são essenciais. A mastite é uma doença de causa multifatorial e a interação dos múltiplos fatores envolvidos tornam a doença bastante complexa. Como regra também em outras doenças, quanto mais cedo o diagnóstico de problemas relacionados à mastite no rebanho, maiores são as chances de reversão e controle da situação. Perdas decorrentes de casos clínicos são rapidamente identificadas, porém, perdas com a mastite subclínica são geralmente superiores e passam despercebidas em muitos casos. Portanto, é nesse sentido que uma investigação eficiente e rotineira da situação da mastite no rebanho é necessária e fundamental para garantir um melhor status do rebanho com relação à doença que mais prejuízo causa à atividade.

 




Autor: Patrícia Vieira Maia

Referências bibliográficas: 

Escrito em 24/03/2014 por Patrícia Vieira Maia, médica veterinária para o Portal Rehagro


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