21/12/2013 às 08h34min - Atualizada em 21/12/2013 às 08h34min

Leite legal

Sistema CNA cria programa para capacitação de produtores na adequação da qualidade do leite às exigências da IN 62

Segundo Bruno Lucchi, a indústria também vai contribuir com o monitoramento da qualidade do leite após a capacitação.

Se em 2011 os Parâmetros de qualidade sugeridos pela antiga Instrução Normativa 51 (IN 51) entrassem em vigor, 5,7% dos produtores brasileiros de leite não atenderiam aos indicadores exigidos para Contagem de Células Somáticas (CCS), segundo dados do Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (Mapa). Por isso, foi criada pelo Mapa a Instrução Normativa nº 62/2011 (IN 62), que prorrogou o prazo até 2016, para as regiões Sul, Sudeste e Centro-Oeste, e 2017, para o Norte e Nordeste, propondo uma redução gradual para CCS e Contagem Bacteriana Total (CBT), com o objetivo de melhorar e padronizar a qualidade do leite brasileiro e adequá-lo às exigências de mercado.

Em função da realidade enfrentada pelos produtores de leite, a Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil (CNA) e o Serviço Nacional de Aprendizagem Rural (Senar), que compõem o Sistema CNA, criaram o Programa Leite Legal. Realizado em parceria com o Serviço Brasileiro de Apoio às Micro e Pequenas Empresas (Sebrae), a iniciativa visa capacitar, em dois anos, 81 mil produtores de leite no país, sendo 15 mil somente em Minas Gerais, que detém 27% da produção nacional. Em entrevista ao Silemg Notícias, o técnico bruno Lucchi, assessor da Comissão Nacional da Pecuária de Leite da CNA, explica a importância dessa iniciativa para o setor.

Como vai funcionar o Leite legal?

A partir da seleção dos produtores serão organizadas turmas de até 15 participantes, cujos dados de qualidade da produção serão registrados no sistema do Leite Legal, três meses antes e depois da capacitação. O objetivo é fazer uma comparação entre essas coletas para verificar-se, ao longo do processo, houve uma real evolução da qualidade do leite dos produtores em relação aos parâmetros de CCS e CBT, com consequente cumprimento da IN 62.

Logo após a capacitação, o instrutor responsável pelo curso visitará a propriedade de cada um dos participantes, para avaliação do nível de aprendizado do produtor. Para isso, será aplicado um check listcom boas práticas de ordenha, que também poderá orientar o produtor nas possíveis dificuldades que ele possa enfrentar em todo o processo.

Na última etapa do programa, os dados de qualidade serão monitorados por três meses. Caso o produtor não tenha obtido o processo esperado, haverá mais uma visita técnica para orientá-lo e reforçar os procedimentos necessários à melhoria da qualidade do leite. Se ele assimilar o processo, conforme a legislação em vigor, será aconselhado a complementar sua formação com outro curso do Senar.

Qual é a participação da indústria?

Os laticínios têm um importante papel no Programa Leite Legal, auxiliando na identificação dos produtores que irão participar, gratuitamente, da capacitação técnica. Eles também podem procurar a unidade do Senar da sua região ou solicitar à indústria parceira a indicação ao programa. A seleção dos participantes será feita com base nos bresultados da qualidade do leite produzido nas propriedades, cujos índices são aferidos mensalmente pelos laticínios, conforme determina a legislação. Os produtores que enfrentarem dificuldades no cumprimento dos parâmetros estabelecidos pela IN 62 serão convidados a participar da iniciativa. A indústria também vai contribuir com o monitoramento da qualidade do leite após a capacitação, fornecendo os resultados da CCS e da CBT por trêss meses.

Como o Programa pretende envolver a cadeia produtiva do leite?

Para que o leite brasileiro seja adequado a esses parâmetros, é necessário trabalhar os elos da cadeia produtiva, por meio de ações como melhoria na infraestrutura e logística rural; harmonização das legislações federal, estadual e municipal; maior equiparação dos serviços prestados pela Rede Brasileira de Laboratórios de Controle da Qualidade do Leite (RBQL); consolidação do pagamento por qualidade pelas indústrias de laticínios; e capacitação dos agentes de coleta e dos produtores.

Com o Programa Leite Legal, todos esses atores terão importância na execução dos trabalhos. Apesar de somente os produtores e as indústrias de laticínios estarem diretamente envolvidos no processo, os laboratórios serão essenciais na realização das análises da qualidade do leite, bem como os transportadores e agentes de coleta. Estes terão de ser capacitados para executarem com destreza suas funções.

Como o impacto das atividades do Leite Legal na cadeia produtiva será mensurado?

Por meio do monitoramento dos indicadores de qualidade do leite – CBT e CCS – coletados antes e após a capacitação. Assim, será possível identificar, com precisão, o real impacto para os produtores participantes e as indústrias de laticínios. Além disso, a aplicação do check list ocorrerá com o uso de uma caneta digital e os dados coletados nas propriedades serão transferidos automaticamente para um software desenvolvido para o Programa Leite Legal. De posse dessas informações, indicaremos as causas que interferem na melhoria da qualidade do leite, referentes à infraestrutura, sanidade, qualidade da água, refrigeração, dentre outros. Tudo isso vai permitir a adoção de estratégias que vão desde novas capacitações até a adoção de políticas públicas para o setor.

Quais benefícios o Programa pode proporcionar para a cadeia leiteira, principalmente para produtores e indústrias?

A melhoria da qualidade do leite traz benefícios diretos aos produtores e ás indústrias de laticínios. Sem problemas sanitários ou caso da mastite, a capacidade produtiva das vacas melhora. Com o leite de melhor qualidade, o produtor vai obter melhor remuneração das indústrias. Essas, por sua vez, ganham em rendimento industrial, em razão da melhoria na qualidade e no volume da matéria-prima.

Quais as perspectivas de resultados?

De acordo com o Censo Agropecuário de 2006, o Instituto Brasileiro de geografia e Estatística (IBGE), existe 1,35 milhões de estabelecimentos produtores de leite no Brasil. Destes, 900 mil comercializam a produção e os demais a utilizam para consumo próprio. Com a meta de capacitar 81 mil produtores em dois anos, espera-se alcançar algo próximo a 10% da produção primária comercial. É um programa ousado, que pretende levar aos produtores conhecimentos básicos sobre as boas práticas de ordenha.

Leite Legal vai contribuir para que o setor conheça melhor a realidade da produção primária?

A partir dos dados coletados nas propriedades e dos indicadores repassados pela indústria será possível avaliar os fatores que, eventualmente, contribuem para a melhoria da qualidade do leite de forma regionalizada. Isso permitirá a adoção de ações efetivas locais, a formulação de novos  cursos ou a elaboração de políticas públicas específicas para o setor.

Quais os principais resultados do projeto-piloto do programa aplicado em Goiás. Paraná e Distrito Federal?

O piloto foi aplicado nesses estados e em Brasília entre o final de 2011 e início de 2012. O resultado foi excelente. A CCS dos produtores participantes apresentou reduções de 22% a 66% nessas regiões, todas abaixo dos valores preconizados pela IN 62. Já a CBT foi reduzida em 30%, também dentro dos parâmetros da normativa.




Autor: Bruno Lucchi

Referências bibliográficas: 

Silemg Notícias - Ano XVI
Número 54 - Agosto/Setembro de 2013


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