22/08/2013 às 14h07min - Atualizada em 22/08/2013 às 14h07min

Produção Orgânica de Leite - Qualidade e Segurança Alimentar

A produção de alimentos orgânicos é uma demanda atual da sociedade. O consumidor deseja alimentos de qualidade, a preço justo, saudáveis do ponto de vista sanitário (livres de zoonoses, como a brucelose, tuberculose, etc.), isentos de resíduos químicos e biológicos (antibióticos, vermífugos, hormônios, príons, etc.) e produzidos com menor uso de insumos sintéticos. Além do mais, existe a preocupação com a conservação do meio ambiente e a biodiversidade, com a geração de empregos no campo, diminuindo o êxodo rural, assim como, com o bem estar animal.

No estado do Rio de Janeiro o consumo de leite convencional é de dois bilhões/litros/ano, enquanto a produção é de cerca de 500 milhões de litros, posicionando o estado no 9º lugar na produção nacional. A Região Centro-Sul produziu no ano passado cerca de 50 milhões de litros de leite, sendo o destaque o município de Vassouras, responsável por cerca de 12 milhões de litros. Já no sul do estado, Valença foi o município de maior produção, com aproximadamente 37 milhões de litros de leite. Essas duas regiões produzem juntas 37% do total e congregam 4.300 produtores (IBGE, 2005).

Há, portanto um grande mercado à espera de produção, entretanto a atividade leiteira fluminense alcança o seu segundo ano de recuperação de  rentabilidade devido principalmente a quebra da Parmalat internacional do mercado, além da política macroeconômica brasileira. Por outro lado, existem algumas perspectivas, como a política de reestruturação da cadeia leiteira, os incentivos fiscais concedidos pela Lei 4.177, além da reabertura da CCPL, que poderão com certeza proporcionar ao setor uma situação mais confortável com possíveis ampliacões para outras regiões do estado.

Neste contexto, surge a produção orgânica de leite, um modelo de produção que tem em sua essência a simplicidade e a harmonia com a natureza, sem deixar de lado a produtividade e a rentabilidade, sendo considerada uma alternativa para o produtor de Estado do Rio de Janeiro e de outros estados preocupados com a qualidade com rentabilidade. Mesmo esta atividade ser ainda incipiente na região, estimativas da FAO indicam que o segmento de produtos orgânicos deverá aumentar sua percentagem do total das vendas de alimentos nos países industrializados em até 30%, em função de que parcela significativa dos consumidores, principalmente de grandes centros urbanos, está disposta a pagar um adicional pelos produtos orgânicos.

No Brasil isto também se evidencia, pesquisas recentes mostram que o consumidor, principalmente do sudeste, está disposto a pagar até 60% a mais pelo leite orgânico comparado ao convencional, no entanto isto ainda não seria o necessário, pois outro estudo mostrou que o preço do leite orgânico ao produtor tem que custar até 70% a mais do valor praticado pelo convencional para ser viável economicamente.

Contudo, apesar de constituir um subnicho do mercado que cresce 10 % ao ano no País, a produção orgânica de leite pode ser uma das alternativas para o produtor fluminense que poderá produzir um produto livre de resíduos, com maior valor agregado e que embora atenda um pequeno mercado, este é composto de consumidores dispostos a pagar a mais pelo produto.

Contudo, é preciso observar que um sistema orgânico de produção de leite não 

é obtido somente com a troca de insumos sintéticos por insumos orgânico-biológicos/ecológicos. O Ministério da Agricultura e do Abastecimento estabelece também uma série de procedimentos para que o leite de uma unidade de produção seja considerado orgânico. Estes procedimentos regulamentam a alimentação do rebanho, instalações e manejo, escolha de animais, sanidade e até o processamento e empacotamento do produto e estão duplamente regulamentados pois obedecem a Lei 10831 (Brasil, 2003) para a produçào orgânica além da instruçào normativa- IN 51 (Brasil, 2002) que preve entre outros sua distribuição e resfriamento adequado.

No que diz respeito à alimentação, a dieta deve ser equilibrada e suprir todas as necessidades dos animais. Para os ruminantes, o consórcio de gramíneas e leguminosas na pastagem é recomendado e é exigida a diversificação de espécies vegetais. Sugere-se a implantação de sistemas silvipastoris, nos quais árvores e arbustos estejam associados a pastagens, ou ainda sistemas rotativos alternando-se pastejos e lavouras. Incentiva-se também a introdução de bancos de proteínas e cercas vivas.

Os suplementos devem ser isentos de antibióticos, hormônios e vermífugos. 

São proibidos aditivos, promotores de crescimento, estimulantes de apetite, uréia, etc. As características de comportamento de cada espécie a ser explorada devem ser consideradas. Para preservar a saúde dos animais, as recomendações são de que sejam utilizados tratamentos alternativos, como homeopatia, fitoterapia, acupuntura, etc. Os produtores devem ainda estar atentos ao processo de lavagem e desinfecção dos utensílios com emprego de produtos químicos.

Contudo nada é mais importante que a qualidade do produto e questões relacionadas a segurança alimentar que afeta principalmente o consumidor que nestes últimos meses vem sofrendo com adulteração do leite convencional distribuídos por empresas tradicionais brasileiras. Neste tocante os princípios da produção orgânica de leite como a não utilização de antibióticos, mas o uso de medicamentos a base de fitoterapia e homeopatia, alimentação livre do cultivo com adubos químicos convencionais, além de utilização de todos a maior parte das fontes alimentares serem de origem orgânica e da própria unidade produtiva, garantem a não contaminação do leite desde a sua produção até seu empacotamento, processos que atendem a demanda da sociedade por alimentos de qualidade e de integridade garantida.

Ë imprescindível se ter em mente que os sistemas de produção orgânicos envolvem uma visão holística da gestão da unidade de produção, em que animais e vegetais tem importância ecológica para o funcionamento desses sistemas, contribuindo para a redução do impacto ambiental, distribuição equitativa dos lucros e viabilidade produtiva. Essas relações necessitam de entendimento científico que permita multiplicar as experiências em diferentes agroecossistemas. Neste contexto viemos trabalhando com um conjunto de instituições preocupadas com o futuro do planeta e para isso com o alimento que estamos produzindo.
 




Autor: João Paulo Guimarães Soares

Referências bibliográficas: 

Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária - Embrapa
SAC da Unidade Embrapa Agrobiologia
Rodovia BR 465, km 7
Seropédica - RJ - Brasil - CEP: 23890-000
Fone: (21) 3441-1500

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