22/08/2013 às 14h04min - Atualizada em 22/08/2013 às 14h04min

O Brasil e a Segurança Alimentar Mundial

Não vamos entrar no âmago acadêmico para enunciar as mais variadas interpretações a respeito de Segurança Alimentar. Mas para que possamos ter uma versão mais oficial, citamos:

Segurança Alimentar: É a realização do direito de todos ao acesso regular e permanente a alimentos de qualidade, em quantidade suficiente, sem  comprometer o acesso a outras necessidades essenciais, tendo como base práticas alimentares promotoras de saúde, que respeitem a diversidade cultural e que sejam social, econômica e ambientalmente sustentáveis. Definição aprovada na II Conferência Nacional de Segurança Alimentar e Nutricional realizada em Olinda, de 17 a 20 de março de 2004.

Mais recentemente: "A segurança alimentar, nos níveis individual, familiar, nacional, regional e global, é alcançada quando todas as pessoas têm, a todo o momento, acesso físico e econômico a alimentos inócuos (que não oferecem riscos à saúde) e nutritivos para satisfazer suas necessidades dietéticas e preferências alimentares, para uma vida ativa e saudável". As duas definições estão corretas. Mas não vamos nos debruçar nas definições emanadas por personalidades e técnicos de elevada capacidade teórica e quem sabe até prática. O que estamos tentando esclarecer e espero que o possa fazê-lo é mostrar o outro lado da moeda, em relação a Segurança Alimentar. Aqui até vou pedir para usar mais que uma moeda, em razão da necessidade de mostrar outros lados das moedas.

Um deles se refere à necessidade do Brasil, parar com esta falta de humanismo e humanidade para com os menos favorecidos. Somos disparadamente um dos maiores produtores de alimentos do mundo e seremos dentro de não menos dez anos o balizador na definição de alimentos de origem animal e vegetal. O mundo irá se alimentar via Brasil.

Não se faz necessário explicarmos os avanços técnicos e tecnológicos que a agropecuária brasileira apresenta e deverá continuar a apresentar. Não se faz necessário afirmar que ainda temos 320.000.000 hectares que podem ser incorporados aos sistemas produtivos agro-silvo-pastoris, sem derrubar sequer um hectare no cerrado, na amazônia, na caatinga e no que resta da faixa litorânea da Mata Atlântica.

O que se faz necessário explicar é que estamos com um dos maiores trunfos, jamais imaginado: COMIDA.

O crescimento da população em vários países sejam eles desenvolvidos, em desenvolvimento e não desenvolvidos é uma realidade. Estas populações necessitam se alimentar diariamente. Não é preciso consultar os enunciados antes postos. É aquela dor no estômago indicando: Estou com fome. São milhares e milhares de pessoas em campos refugiados brigando por um naco de pão, um pacote de bolacha, um pacote de leite longa vida. São milhares e milhares de famílias em países em desenvolvimento, que possuem riquezas minerais, que não as exploram, mas não produzem o suficiente para alimentar 

suas populações. São milhares e milhares de famílias de países desenvolvidos, com excelente renda per-capita, alguns destes países, com rendas altíssimas, com poupança interna consolidada e muitas vezes maior que o PIB nacional destes países, e que irão consumir alimentos.

E o Brasil e a Segurança Alimentar o que tem que haver com todos estes cenários? Desumano seria, usar as condições atuais e futuras, em relação à produção de alimentos, para impor condições de negociações com os países cujas populações sobrevivem abaixo dos limites da pobreza total. Mas temos os países em desenvolvimento que por razões internas ou até climáticas, não conseguem produzir o alimento do dia a dia, para sua população, mas que não obstante a estas limitações, apresentam situações favoráveis ao Brasil. Países africanos: Sudão.

As grandes reservas naturais de fosfatos originados de sedimentos marinhos, localizam-se no Marrocos, na Argélia, Tunísia e Líbia. Alguns paises do Oriente Médio. Na Ásia-China-. Já no continente americano o México e os Estados Unidos, se apresentam como produtores deste mineral, que é essencial para as culturas de grãos, que o Brasil por sua vez exporta.

Qual seria a co-relação do Fosfato e a Segurança Alimentar? Ao invés de pagarmos em dólares por tonelada métrica importada, vamos pagar em alimentos agregados de valores. Temos que deixar de exportar soja em grão, farelo de soja, óleo degomado, cortes de congelados de frangos, cortes congelados de carnes bovina e suína. Temos a urgência de agregarmos valores a estes produtos.

E em assim agindo, a situação será outra. Quem tem matéria prima que nos interessa? Mas não tem alimentos para saciar a fome dos seus concidadãos? Nós temos a solução. Ninguém mata a fome de uma população com matéria prima bruta, no caso para exemplificar o Fosfato.

A Coréia do Sul uma das maiores fabricantes que envolvem a Tecnologia da Informação, está com a sua capacidade de uso do solo praticamente esgotada. Produzem equipamentos eletrônicos, carros, navios, trens de alta velocidade, motos e um sem número de equipamentos. Importam do Brasil, pés de galinhas e de perus; cortes congelados de carne de frango; soja em grão e peletizada. 

Quem ganha com isso? A Coréia do Sul, que nos entrega produtos acabados. Qual a razão que leva o Brasil a não usar a Segurança Alimentar para pressionar a Coréia do Sul a aceitar que exportemos nossos produtos ou Comodities agregadas de valor? A Segurança Alimentar no momento é dita como a grande arma para que se possa alimentar os povos em qualquer nível de escala social.

Mas dentro de poucos anos a Segurança Alimentar passará a ser encarada como uma arma de pressão. Nenhum país vive sem comida. Imaginem o Japão, se não houvesse abastecimento de carne congelada de frangos, de soja em grão, de 

carnes congeladas de bovinos e suínos? Eles não são auto-suficientes em alimentos básicos. Mas dominam tecnologias de precisão, diretamente ligadas à informática, a construção naval, indústria automotiva e outras mais. Mas como se diz no popular: ninguém consegue sanar a fome, com chips eletrônicos. (existem chips de batata, banana, mandioca...). E é nesta linha de raciocínio que a Segurança Alimentar deverá se fazer presente nos anos futuros.

De forma um tanto grosseira: A pressão por alimentos de parte de países que dominam altas tecnologias, como a microeletrônica tende a crescer. Muitas vezes estas pressões se fazem presentes pela mudança de padrão social e econômico que experimentam, em razão do desempenho que as empresas, nas quais trabalham, no mercado internacional.

Vamos exemplificar de uma maneira mais simplista, mas que pode ser entendida: Os países serão competitivos dentro desta definição quando a: "função da adequação das estratégias das empresas individuais ao padrão de concorrência vigente no mercado específico. Em cada mercado vigoraria um dado padrão de concorrência definido a partir da internalização entre estrutura e condutas dominantes no setor" (Kupfer, Haguenauer e Ferraz, 1996, p. 14). 

Este exemplo empregado no setor empresarial, pode ser usado no âmbito da produção de alimentos. O Brasil tem a necessidade urgente de adequar suas estratégias de produção de alimentos agregados de valor, de modo a poder concorrer, não com os países produtores de alimentos (estes estão com suas fronteiras agrícolas esgotadas, nós temos ainda 320.000,00 hectares a serem ecologicamente e corretamente explorados). Mesmo porque como cita o enunciado acima em cada mercado vigorará um forte padrão de concorrência.

Vamos mudar o foco um pouco, mas já retornamos. O Brasil exporta minério de ferro para o Japão. Matéria prima para a siderurgia japonesa e lógico para todos os outros países. Para o Japão sobreviver neste segmento dos derivados do aço, o minério de ferro exportado pelo Brasil, é essencial para a sua sobrevivência no mercado internacional e nacional. No primeiro momento que o Brasil resolver agregar valor ao minério de ferro e exportar este produto agregado de valor, para o Japão, haverá uma forte reação na economia japonesa. Agora vamos imaginar que o Brasil resolva não mais exportar minério de ferro para o Japão. Quais seriam as conseqüências?

Voltemos ao assunto. Se o Brasil resolver não mais exportar alimentos, em virtude digamos de fatores climáticos, como uma seca prolongada. Quais seriam as implicações em termos de alimentar as populações dos países importadores de alimentos, do Brasil? Longe de desenvolver um raciocínio chantagista, a Segurança Alimentar, poderá se transformar em um instrumento de pressão, no sentido de obter vantagens em relação às necessidades internas dos países importadores de alimentos, mas detentores de produtos naturais e ou tecnologia que lhes interessam.

O alimento poderá se tornar um dos grandes instrumentos de pressão e de barganha no mercado internacional. Citamos anteriormente o caso da importação do Fosfato de rocha. A China é a segunda colocada no cenário de reservas naturais deste elemento. Qual a relação existente entre uma tonelada métrica de Fosfato produzido na China e uma tonelada métrica de soja produzida no Brasil? Qual a relação de uma tonelada métrica de Fosfato chinês e uma tonelada de carne de frango, produzida no Brasil. Ou ainda. O Marrocos se destaca pelas reservas de Fosfato. O mesmo raciocino se aplica a este país. Nós temos condições de produzir alimentos com o uso de tecnologias alternativas como a rochagem - O Processo de rochagem se baseia na utilização de rochas moídas para a remineralização do solo, fazendo uso de diferentes tipos de rochas, que podem suprir - com uma demanda adequada de nutrientes - os solos tropicais, já que o país possui grande variedade geológica. Mas e os países que produzem o Fosfato e praticam preços elevados, como forma de pressão, que pode ser entendida como normal, como ficariam se o Brasil, não mais importasse o Fosfato, buscando um preço compatível com as nossas intenções e necessidades?

Finalizando: A Segurança Alimentar poderá se tornar uma grande arma de pressão, para que países auto-suficientes em alimentos, passem a pressionar países que carecem de alimentos, mas são possuidores de elementos como petróleo, tecnologia, minerais e etc. se curvem ante a necessidade de alimentar suas populações.


 




Autor: Romão Miranda Vidal

Referências bibliográficas: 

Médico Veterinário, atuando na área de projetos agropecuários, em especial planejamento de propriedades rurais, rastreabilidade, reformulação e redirecionamento de atividades.

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