15/05/2011 às 07h52min - Atualizada em 15/05/2011 às 07h52min

Avaliação dos Riscos Ocupacionais em Laticínios

Resumo: Este trabalho apresenta os resultados de um estudo feito em indústrias de laticínios, onde se buscou identificar dos riscos ocupacionais nelas presentes. Foram identificados riscos físicos, mecânicos e ergonômicos, os quais, em função de suas características, demandam tanto ações preventivas e corretivas, como avaliações mais precisas para quantificação de alguns riscos verificados.

Palavras chave: Segurança no Trabalho, Riscos Ocupacionais, Indústrias de Laticínio.

 

1.    INTRODUÇÃO

Um elemento que diferencia o setor produção de alimentos de outros setores é o fato deste trabalhar com produtos que exigem tecnologias bastante específicas, uma vez que o alimento tem vida útil de curta duração, além de estar sujeito aos imprevistos climáticos, da produção ao processamento, dependendo diretamente de controles de qualidade cada vez mais rigorosos. A vulnerabilidade do alimento à contaminação microbiana, torna-o extremamente suscetível a alterações nutricionais, sensoriais e microbiológicas, exigindo armazenagem e manipulação cuidadosas e adequadas. A pressão temporal, uma característica específica do setor, é outro fator que torna o tempo de produção limitado e com pouca flexibilidade, devendo ser rigorosamente cumprido. Assim, os trabalhadores destas indústrias ficam sujeitos a atividades que demandam cuidados acentuados em relação ao controle dos produtos, o que pode acarretar a estes desgastes emocionais, físicos e psicológicos, podendo assim, influenciar diretamente no ritmo da produção com paradas inesperadas devido à ocorrência de acidentes nestes ambientes (PROENÇA apud, SANTANA 1997). Com isso, acredita-se que a melhoria das condições dos ambientes de trabalho podem contribuir para a redução do desgaste físico e emocional dos trabalhadores, evitando a ocorrência de acidentes e doenças ocupacionais.

2.    MATERIAL E MÉTODO

Este buscou identificar e avaliar os riscos ocupacionais presentes nos ambientes de trabalho de indústrias de laticínios. A pesquisa foi realizada em duas indústrias da região sudoeste da Bahia, as quais apresentam semelhanças entre os tipos de produtos e estrutura física. Ambas empresas estão instaladas em sede própria, atuam no mercado em média há cinco anos e produzem basicamente manteiga e queijos de diversos tipos. O estudo foi feito por meio de análise visual das condições de trabalho e da estrutura física dos locais, tomando-se como referência as Normas Regulamentadoras (NR’s), estabelecidas pelo Ministério do Trabalho e Emprego. Os riscos ocupacionais investigados estão tradicionalmente divididos em cinco grupos e são definidos como químicos, físicos, biológicos, ergonômicos e mecânicos (ZOCCHIO, 2002).

2.1.  Os Riscos Ocupacionais

Os riscos ocupacionais caracterizam-se como todo risco relativo ao ambiente de trabalho que, em função de sua natureza, concentração ou intensidade e tempo de exposição, são capazes de causar danos à saúde ou integridade física dos trabalhadores (GONÇALVES, 2000), podendo estar presentes em qualquer ambiente de trabalho, inclusive nas indústrias de alimentos.

Os riscos físicos são as diversas formas de energia que possam estar expostas aos trabalhadores como ruído, temperaturas altas ou baixas, pressões anormais, diversos tipos de radiações, vibrações, etc. Os riscos químicos correspondem aos produtos com características corrosivas, tóxicas, alergênicas, etc., que possam penetrar no organismo pela via respiratória, ou absorvidos pelo organismo pela pele ou por ingestão. Os riscos biológicos são as diversas espécies de microrganismos: bactérias, fungos, parasitas, protozoários e vírus freqüentemente presente em vários ambientes de trabalho e, quando em contato com o trabalhador, poderão causar danos à saúde. Os riscos mecânicos ou risco de acidentes são os que têm as características de agredir as pessoas por meio de alguma ação mecânica. Os agentes ergonômicos são caracterizados pela relação homem/atividade e aparecem em decorrência de posturas assumidas ou esforços exercidos na execução das atividades. Estes riscos podem ocasionar não só distúrbios psicológicos ou fisiológicos no empregado, mas também a redução na produtividade e na segurança no trabalho.

3.    RESULTADOS E DISCUSSÃO

Os resultados mostram que uma série de riscos pode ser encontrada nas empresas estudadas em diversas situações de trabalho, sendo eles dos tipos físicos, ergonômicos e mecânicos.

3.1.  Riscos Ergonômicos

Os funcionários executam suas atividades sempre de pé, muitas vezes em posturas inadequadas exigindo esforços intensos e repetitivos, que podem favorecer o surgimento de lesões nos membros inferiores, superiores e na coluna. Nas etapas do processo de fabricação de queijos, como preparo da massa, corte, mexedura, desprendimento do soro e filagem, foram constatados grandes esforços físicos, principalmente nos braços e costas, exigindo ainda grande inclinação do tronco, o que contribui para o surgimento de dores e lesões na coluna. Problemas desta ordem também foram encontrados em outras etapas, como na recepção do leite e no setor de embalagem, onde ocorre o levantamento e transporte manual de cargas. No caso do trabalho em pé, deve-se permitir quando possível, a alternância entre o trabalho em pé e sentado. Caso contrário, recomenda-se pelo menos seguir o disposto na Norma Regulamentadora 17 (BRASIL, 1990), a qual estabelece que para as atividades onde os trabalhos sejam realizados de pé, devem ser colocados assentos para descanso em locais em que possam ser utilizados por todos os trabalhadores durante as pausas. A posição parada, em pé, é altamente fatigante porque exige da musculatura muito trabalho para manter esta posição. O trabalho em pé atinge diretamente os membros inferiores os quais suportam de 33 a 40% do peso do corpo humano, podendo causar dores e varizes (IIDA, 1990). As inclinações de tronco, em função da intensidade dos movimentos podem contribuir para o surgimento de distúrbios na coluna vertebral, sendo a dor lombar considerada a principal causa de absenteísmo ocupacional (KSAM, 2003). Uma boa postura é aquela em que o trabalhador pode modificá-la como quiser, o ideal é que ele possa adotar uma postura livre (BRASIL, 2001). Em meio às dificuldades dos trabalhadores poderem executar suas atividades na postura que bem desejarem, ao menos deve lhes ser permitido a alternância entre as posturas em pé e sentado. Esta situação pode ser facilmente aplicada em algumas atividades desempenhadas pelos funcionários das indústrias estudadas.

3.2.  Riscos Físicos

Algumas etapas do processo são feitas em temperaturas relativamente altas, como por exemplo a filagem da massa e o aquecimento do leite nos tanques encamisados, o que pode causar grande desconforto térmico para quem as executa. Todos os funcionários têm acesso a câmara fria sem a utilização de vestimenta adequada para este fim, estando desta forma expostos a baixas temperaturas em torno de 10°C. Constatou-se também a existência de ruídos intensos provocados pelos equipamentos, como desnatadeira, a qual causa desconforto aos trabalhadores. Os efeitos do ruído podem gerar queda na produtividade devido à dificuldade de concentração, além de danos a saúde do trabalhador.

Recomenda-se, que sejam feitas avaliações dos valores da temperatura dos ambientes de produção, para definição das condições de conforto térmico. Faz-se necessário também a medição dos níveis de pressão sonora durante o funcionamento dos equipamentos, para definição e avaliação das condições de conforto acústico, conforme a Norma Regulamentadora 15 (BRASIL, 1978). No acesso à câmara fria deve-se exigir o uso de vestimenta adequada, para evitar problemas decorrentes da exposição a variações de temperatura, entre o setor de produção e o interior da câmara.

3.3.  Riscos Mecânicos

Foram identificadas como situações favoráveis a ocorrência de acidentes os seguintes riscos: piso escorregadio devido ao acúmulo de água e gordura; utilização de objetos perfuro-cortantes em diversas situações e ainda iluminação insuficiente para realização das tarefas em alguns locais do setor de produção. Os riscos referentes ao piso molhado e escorregadio são inevitáveis, em função do processo de produção, porém favorecem a ocorrência de escorregões e quedas, as quais podem causar lesões e ou fraturas. Por conta disso, todos os funcionários devem calçar botas antiderrapantes adequadas para o trabalho em indústrias de alimentos, o que já foi identificado nas indústrias visitadas. A utilização de objetos perfuro-cortantes deve ser orientada para que os funcionários evitem acidentes em decorrência do seu uso incorreto. A percepção de uma iluminação inadequada deve ser verificada com a medição e avaliação da iluminância dos setores de produção para possíveis adequações às normas vigentes. As instalações das indústrias de alimentos deverão dispor de iluminação natural e/ou artificial que possibilitem a realização das tarefas e não comprometam a higiene dos alimentos (BRASIL, 1997). A iluminação não deve ser insuficiente, exigindo esforço visual, nem excessiva, ofuscando e perturbando a visão.

4.    CONCLUSÃO

          As medidas para eliminação dos riscos identificados podem variar das mais simples, como o uso de equipamentos de proteção individual, até algumas mais complexas, envolvendo mudanças na estrutura física do ambiente de trabalho. 

          O fato de não terem sido identificados riscos biológicos e químicos no processo de produção, pode ser explicado devido aos cuidados prioritários que são tomados em relação às condições de limpeza e higienização do local de trabalho.

          Historicamente as indústrias de alimentos têm priorizado a busca da qualidade dos produtos, atendendo-se rigorosamente aos manuais de legislação de higiene e boas práticas de fabricação. A importância de se observar condições de conforto dos ambientes de trabalho destas indústrias tem que ganhar a mesma importância, tornando-se também uma prioridade na busca da qualidade dos produtos e bem estar dos trabalhadores.

 

ABSTRACT: This work present the results of an analisys of occupational risks in dairy industries. The risks identified where the phisics, mechanics and ergonomics, which according they characteristics need preventive and corrective actions, and evaluations for quantification of some specifics risks.

Key words: Safety at Work, Occupacional Risks, Dairy Industries.




Autores: 

SANTANA, N.B., [2]*RODRIGUES, L.B., ²BONOMO, R.C.F., ²VELOSO, C.M., SANTOS, L.S.1

 

Local: Universidade Estadual do Sudoeste da Bahia - Campus de Itapetinga

 

Pç. Primavera, 40 – Primavera – 45700-000 - Itapetinga - Bahia

 

 

 

 

 

[1] Bolsista de Iniciação Científica – PPG/UESB

 

 

[2] Professor(a) Assistente – Laboratório de Engenharia de Processos. *lucianobr@uesb.br

 

 




Autor: Santana, N.B. e outros

Referências bibliográficas: 

BRASIL, Ministério do Trabalho e Emprego, Portaria n° 3.214 de 08 de junho de 1978, Norma regulamentadora 15 – Atividades e operações insalubres. , 1978.
BRASIL. Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento. Regulamento técnico sobre as condições higiênico-sanitárias e de boas práticas de fabricação para estabelecimentos elaboradores/industrializadores de alimentos. Portaria nº 368, de 04 de Setembro de 1997. , 1997.
BRASIL. Ministério do Trabalho e Emprego. Norma regulamentadora 17 – Ergonomia. Portaria n° 3.751 de 23 Novembro de 1990. , 1990.
BRASIL. Ministério do Trabalho e Emprego. Ergonomia – indicação de postura a ser adotada na concepção de postos de trabalho. Nota Técnica 060/2001. , 2001. 6p.
GONÇALVES, E.A., Manual de Segurança e Saúde no Trabalho. LTr Editora. 1a Edição. São Paulo, 2000.
IIDA, I., Ergonomia – produção e projeto. Editora Edgard Blücher Ltda, São Paulo, 1990. 465p.
KSAM, J., Lombalgia: quebra de paradigmas. Revista CIPA, Edição nº 280 - Ano XXIV. São Paulo, SP, 2003.
SANTANA, A.M.C., A abordagem ergonômica como proposta para melhoria do trabalho e produtividade em serviços de alimentação, Dissertação de Mestrado, Universidade Federal de Santa Catarina, , 1997.
ZOCCHIO, A., Prática da Prevenção de Acidentes: ABC da segurança no trabalho. Editora Atlas. 7ª Edição Revista e Ampliada. São Paulo, 2002.


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