06/11/2010 às 16h16min - Atualizada em 06/11/2010 às 16h16min

Entenda melhor a Mastite

Além das perdas imediatas, a mastite afeta a produtividade dos animais em longo prazo e merece atenção contínua

Também conhecida por mamite, a mastite é considerada a doença mais importante do ponto de vista econômico na produção leiteira. Trata-se de uma inflamação da glândula mamária causada por microrganismos que invadem o úbere, se multiplicam e produzem toxinas e outras substâncias irritantes. Ela se divide em mastite contagiosa (a transmissão ocorre de animal para animal) e mastite ambiental (os microrganismos que provocam a doença estão no ambiente em que as vacas vivem). “Diversos fatores podem influenciar a ocorrência de mastite: condições do ambiente (acúmulo de lama nos locais por onde o gado circula, se alimenta ou descansa, e umidade), clima, estresse térmico, alimentação, sistemas de manejo adotados, entre outros”, alerta Marcos Veiga, professor da Faculdade de Medicina Veterinária e Zootecnia da USP de Pirassununga. 

Maria Aparecida Paiva e Brito, pesquisadora da Embrapa Gado de Leite, chama a atenção para outros fatores que podem contribuir para a ocorrência de mastite ou agravar o problema: irritantes químicos introduzidos na glândula mamária, como medicamentos para tratamento de mastite, e trauma no úbere ou irritação física devido ao mau funcionamento da ordenhadeira mecânica. Como a mastite pode ser transmitida de um animal para outro durante a ordenha em série, é importante adotar rigorosamente medidas de higiene entre uma e outra vaca. Ordenhar por último as vacas infectadas também ajuda a diminuir os riscos de transmissão entre o rebanho. Esses fatores estão relacionados aos agentes infecciosos, a características anatômicas dos úberes dos animais (úbere pêndulo e orifício dos tetos frouxos), ao ambiente, ao manejo da ordenha e ao uso inadequado e falta de manutenção da ordenhadeira mecânica.

Outros aspectos podem interferir indiretamente, aumentando a ocorrência de mastite: idade da vaca (mais alta em vacas velhas) e período de lactação (maior no final da lactação). Daí a importância de se manter sob controle não só os fatores ambientais e de higiene, como também buscar o manejo correto (veja quadro da pág. 5) e a manutenção preventiva dos equipamentos de ordenha. Ambiente limpo e seco evita a instalação e proliferação de microrganismos que podem afetar a vaca. Por sua vez, uma boa circulação de ar ajuda a manter o ambiente fresco e agradável para os animais e os funcionários, melhorando a interação entre ambos e mantendo sob controle o estresse térmico.

Diferentes formas

A mastite ocorre de duas maneiras: a clínica e a subclínica. Chama-se mastite clínica aquela em que os sinais da doença são evidentes e no úbere (inchaço, aumento de temperatura, endurecimento, dor) ou no leite (presença de coágulos, grumos, flocos, aspecto aguado, com ou sem presença de sangue ou pus). Essas alterações são detectadas quando se ordenha os primeiros jatos de leite de cada quarto mamário sobre uma caneca de fundo telado ou escuro (também chamada de tamis).

A mastite subclínica causa alterações no leite que não são visíveis a olho nu - aumento na Contagem de Células Somáticas -, aumento nos teores de cloro, sódio e proteínas séricas, e diminuição nos teores de caseína, lactose  e gordura do leite. Essas características só podem ser avaliadas por meio de testes auxiliares como o CMT (Califórnia  Mastitis auxiliares como o CMT (Wisconsin Mastitis Test) e a CCS (Contagem Eletrônica de Células Somáticas).

Com relação à idade da vaca e ao estágio de lactação, Maria Aparecida explica que a CCS é alta imediatamente após o parto, mas retorna aos níveis normais em aproximadamente 8 a 14 dias, voltando a aumentar no final da lactação. Entretanto, nas vacas que nunca tiveram infecção intramamária, o aumento da CCS com a idade ou no final da lactação não é significativo. “O ligeiro aumento observado no final do período de lactação em vacas que nunca foram infectadas é interpretado como uma influência do efeito de concentração, devido à queda de produção, normal nesse período”, explica .



Tabela I - Contagem de células somáticas como indicação do percentual de perda de produção

 

Contagem de células somáticas                     Percentagem de quartos infectados       Percentagem de perda de produção

200.000                                                                                   6%                                                    0%

500.000                                                                                  16%                                                    6%

1.000.000                                                                                32%                                                  18%

1.500.000                                                                                48%                                                   29%           

 

Padrões para CCS

Há diferentes padrões para considerar a evidência de mastite subclínica. Enquanto alguns profissionais consideram aceitável o leite com até 300.000 células somáticas por mililitro de leite, outros estabelecem esse limite em 100.000 ou 200.000/ml para a CCS do leite total do rebanho é considerado razoável para rebanhos com um bom controle de mastite. O limite máximo de CCS para aceitação do leite nas indústrias é regulamentado na maioria dos países: “Na Comunidade Européia e na Nova Zelândia, o limite é de 400.000, no Canadá, 500.000 e nos Estados Unidos, 750.000”, informa. No Brasil, o número aceito pela Instrução Normativa 51, em vigor a partir de julho de 2005, é de 1.000.000/ml. Mas a mesma regulamentação estabelece uma diminuição progressiva desse número até 2011, quando o máximo aceito passará a ser 400.000/ml. Veiga sugere que o monitoramento da mastite subclínica deve ser feito mensalmente por meio do CMT das vacas em lactação ou da CCS do rebanho ou do leite do tanque. Por questões econômicas, porém, o tratamento da mastite subclínica não deve ser feito de imediato, diferentemente dos casos de mastite clínica ou animais com infecção comprovada por Streptococcus agalactiae, que apresenta maiores chances de cura, segundo José Renaldi Brito, pesquisador da Embrapa gado de Leite. Durante a lactação, o risco de reinfecção é grande, o que representa novos pastos com remédios e perdas com descarte de leite. O tratamento de todo o rebanho deve ser feito imediatamente após a secagem dos animais, que ocorre de 50 a 60 dias antes do parto. Quando for necessário proceder ao tratamento durante a lactação, recomenda-se o uso de antibióticos, aplicados com equipamentos descartáveis, de acordo com as recomendações do veterinário, respeitando-se rigorosamente o período de carência dos produtos, no qual o leite tem que ser descartado. Uma vez constatada a presença de mastite no rebanho, é indicado fazer testes de cultura microbiana para detectar qual agente está atingindo o rebanho e, assim, determinar o melhor antibiótico a utilizar, seja no tratamento imediato, seja no período seco.

Programa de controle

O professor Marcos Veiga e a pesquisadora Maria Aparecida Paiva e Brito alertam para alguns procedimentos necessários no manejo diário dos animais para evitar a mastite.

·             Tratamento de todas as vacas no período seco.

·             Tratamento imediato de todos os casos clínicos.

·             Funcionamento adequado do sistema de ordenha.

·             Correto manejo de ordenha com ênfase na desinfecção dos tetos após a ordenha.

·             Manter as vacas de pé após a ordenha para evitar que os canais dos tetos, ainda abertos, entrem em contato com microrganismos do solo.

·             Descarte de vacas com mastite crônica.

·             Boa higiene e conforto na área de permanência dos animais.

·             Em caso de tratamento de mastite clínica, além da aplicação do antibiótico, aplicar compressas de água morna no quarto afetado e proceder a ordenhas freqüentes enquanto durarem os sinais clínicos.

Importância econômica

Segundo o professor Marcos Veiga, de todos os prejuízos causados pela mastite, 70% são atribuídos à forma subclínica, enquanto os restantes 30% são relativos à forma clínica. Nesse total estão incluídas as perdas devido à diminuição na produção de leite, que é responsável por 66% do total das perdas, visto que há uma diminuição de aproximadamente 15% na produção de leite de vacas com mastite subclínica; gastos com medicamentos; leite descartado; serviços veterinários; descarte prematuro de animais e diminuição no valor comercial dos animais afetados. 

“Em muitos lugares do mundo, os prejuízos causados pela mastite são duas vezes maiores do que os causados por problemas de infertilidade e doenças da reprodução”, explica a pesquisadora Maria Aparecida. “Os prejuízos são devidos às lesões causadas nos tecidos que produzem e secretam o leite. Cada vez que há infecção na glândula mamária, há perda de tecido secretor, tanto na mastite clínica como na subclínica.” Na forma subclínica, porém, os danos costumam ser mais graves: “Enquanto a mastite clínica fica evidente e é tratada rapidamente, a subclínica pode permanecer por longos períodos, tornando irreversíveis os danos causados ao tecido secretor. Daí a importância de tratar todas as vacas no período seco”. Segundo a pesquisadora, como a mastite subclínica é a forma mais comum da doença, e pode estar presente sem ser notada por longos períodos nos rebanhos, ela causa mais prejuízo econômico que a mastite clínica. Pode-se predizer as perdas resultantes da redução da produção de leite baseando-se na contagem de células somáticas (veja Tabela 1). Mastite subclínica pode evoluir para a forma clínica ou persistir no nível subclínico por um longo período. Um caso de mastite clínica geralmente sinaliza para um problema de mastite subclínica mais amplo do rebanho, já que, para cada caso clínico de mastite, há 20 a 40 vezes casos subclínicos. Por isso, na opinião de Maria Aparecida, os programas de prevenção de mastite devem ser direcionados na detecção e redução da mastite subclínica. “É importante lembrar que a mastite subclínica nos rebanhos significa também reservatório de agentes infecciosos, que podem se espalhar para os outros animais”, alerta a pesquisadora.



 




Autor: Leite LTDA número 52 - Caderno Especial

Referências bibliográficas: 

Leite LTDA número 52 - Caderno Especial


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