07/08/2008 às 09h36min - Atualizada em 07/08/2008 às 09h36min

Gerenciamento do agro-negócio do leite

1. INTRODUÇÃO

Administrar, hoje, significa gerenciar o futuro, estar atento aos impactos que as mudanças provocaram nos ambientes das empresas e no mundo. Administrar, tomar decisões neste final de milênio, envolve novo posicionamento diante dos desafios que têm sido apresentados ao setor, exigindo posições diferentes das assumidas por antepassados, não permitindo que a tomada de decisão seja realizada empiricamente. Com a mudança das regras do jogo, é necessário ampliar a visão de negócio e encarar a propriedade como uma empresa; e que, como tal, deve gerar riqueza, lucro. É chegado o momento de inovar, de ter criatividade e rapidez nas decisões. Isso eqüivale a dizer que as repercussões de outras administrações interferem na atual, principalmente em tempos de economia aberta. A empresa do futuro deverá ser enxuta, "melhor. menor diferente" e mais ágil. O empresário do futuro deverá "aprender a aprender e aprender a esquecer". Ou seja, o aprendizado é constante, da mesma forma que devem ser esquecidos procedimentos considerados ultrapassados para que possa estar acompanhando a evolução do mercado.

Em recente estudo realizado por professores de universidades americanas, investigaram os principais impactos no mercado mundial de alimentos, buscando apontar as tendências da agropecuária para o próximo milênio. O resultado desse trabalho assinala mudanças drásticas decorrentes da globalização da economia e da mudança de hábitos de consumo traduzidos em maior instabilidade dos preços dos produtos. Soma-se a esse fato a morosidade das negociações da OMC (Organização Mundial do Comércio) e os problemas climáticos criados pelo El Nino. (FOLHA, 1998)

No artigo supracitado, a economista Roberta Cook, da Universidade da Califórnia, Estados Unidos, destacou alguns pontos que fortalecem essa posição, quais sejam:

Hábitos de consumo - Demanda cada vez mais influenciada por crianças e jovens. Grande influência do "fast food" americano e do sabor global, em que marcas globais são responsáveis pela homogeneização das preferências alimentares.

Aumento de consumo - Resultado do crescimento econômico e da renda.

Conveniência - Demanda de alimentos de conveniência e fracionados em função da crescente participação da mulher no mercado de trabalho e redução do tamanho das famílias.

Saúde - A crescente preocupação com a nutrição tem aumentado a demanda por linhas saudáveis de alimentos tipo "lean-cuisine e no fat".

Nicho verde - Segurança alimentar em relação ao uso de adubos químicos e agrotóxicos. Os consumidores manifestam desejo de comprar alimentos que não apresentem resíduos, inclusive durante o processo de produção.

Oportunidades - Os empresários devem estar prontos para mudar o "mix" de produtos para atender às sinalizações do mercado.



A paralisia diante de novos paradigmas levou e está levando muitas empresas do setor à estagnação e à morte lenta. Apavoradas diante do desconhecido, elas continuam aguardando mais tempo para se decidirem, sem saber que esse tempo é crucial, às vezes mortal e que não haverá mais tempo para reagir. Nem como retroceder.

Muitas cooperativas sofrem neste estado de espera, em que uma parcela de seus cooperados não vislumbram as mudanças das regras do jogo. Estão presos a conceitos arraigados e preferem que o barco afunde com todos a salvar o patrimônio de sua empresa. Na opinião de Meirelles "Cooperativa quebrada ou liquidada não tem papel social. Sem ganhar escala, adotar sistemas de remuneração que gerem matéria-prima com qualidade, sem rapidez no atendimento, as cooperativas não conseguirão sobreviver. Nenhuma outra empresa conseguirá". (MEIRELES,1996)

Durante a crise é necessário ser criativo e buscar soluções para os problemas. Renovar os recursos, melhorar o desempenho e evoluir constantemente são ferramentas indispensáveis neste cenário. Não é possível adiar ou tentar esconder os problemas e as ineficiências, pois a demora para reagir compromete a administração, e a ineficiência será traduzida não só pela descapitalização promovida com a venda de rebanho, dispensa de mão-de-obra, diminuição na margem, mas pelo abandono e pelo baixo nível de investimento. Para os que não conseguem acompanhar o mercado, saída é trabalharem nichos específicos de mercado, ou incorporar-se às estatísticas da informalidade.

Na opinião de diversos especialistas do setor, unânime a posição de que o grande desafio d indústria de laticínios, neste fim de século, é a organização da produção primária da cadeia produtiva do leite.

Como ter uma indústria competitiva num mercado altamente competitivo, se existem grande restrições que inviabilizam o seu desenvolvimento?

Alguns gargalos apontados nas discussões passam pela intensificação de mecanismos que garantam políticas públicas que dêem prioridade ao papel do governo diante dos produtores estabeleçam mecanismos que suavizem os efeitos danosos causados pelas práticas de comércio internacional e reduzam as externalidades que afetam o setor.

O último relatório da FAO (IMAGEM RURAL DO LEITE,1998) apontou o pequeno crescimento da produção de leite no mundo, exceto em alguns países como o Brasil, com taxas anuais de crescimento superiores a de vários países. O Brasil tem caminhado para a auto-suficiência na produção de leite, apesar de ser historicamente caracterizado como grande importador de lácteos. Jank apresenta os dados sobre o crescimento do mercado no período 90-97, os quais apontam para o crescimento do mercado formal de leite e derivados em 17%, o mercado informal 40% e as importações 179°/0, no mesmo período. (JANK ET AL, 1999)

Convivem neste cenário empresas brasileiras que atuam no setor de lácteos que exportaram US$ 10 milhões em 1997, referente à venda de leite UHT, leite em pó, creme de leite, manteiga e queijos; resultado do investimento em capacitação tecnológica, geração de novos produtos, processos com aprimoramento das características atuais que possibilitam a competitividade (REVISTA GLEBA 1998, Vilela, Gomes e Calegar mostram que o Brasil tem um grande mercado potencial para produtos lácteos e condições favoráveis para produzir leite suficiente para suprir a demanda interna e gerar excedentes exportáveis. (apud CALDAS et al. (1998).

Nessa linha de raciocínio, ALVES (1998) afirma que é possível exportar. O maior problema está relacionado à sanidade do rebanho, ao custo de processamento, incluindo-se transportes e portos.

Outras barreiras têm dificultado o acesso de empresas à exportação, tais como medidas sanitárias, medidas não-tarifárias, subsídios, as quais têm sido avaliadas e discutidas, destacando-se a participação da CNA, OCB e ABAG. (REVISTA GLEBA 1998).

Alguns técnicos acreditam que, se o governo federal estabelecer uma política de médio/longo prazos, não precisará importar, pois, hoje, o Brasil é obrigado a importar 10% da produção nacional para atender a demanda, mas o volume adquirido tem sido o dobro disso e o resultado traz prejuízos para os produtores e redução no preço do leite recebido. (DIÁRIO DO COMÉRCIO, 1998)

2. PRINCIPAIS PONTOS PARA REFLEXÃO

Excluídos - Os pequenos produtores encarados como barreira social ao desenvolvimento da pecuária leiteira devem passar por um processo de reconversão por meio de capacitação, treinamento e ampliar suas atividades ou atuar em nichos específicos.

Nível de conhecimento do produtor - Vários diagnósticos (EMATER/MG E SEBRAE/MG entre outros) apontam o baixo nível de escolaridade e instrução que atestam a falta de conhecimento do produtor na adoção de tecnologias vulgarizadas e de fácil adoção, bem como a forma de organização social e na administração da propriedade.

Heterogeneidade da produção - A estrutura da cadeia reflete o pequeno poder de barganha do produtor em função da assimetria na produção (muitos produzindo pouco e poucos produzindo muito). O produtor está pressionado por duas estruturas organizadas, tanto para a venda de insumos para a propriedade rural (oligopsônio), quanto pela compra de seu produto (oligopólio).

Concentração industrial - Processo que tem se intensificado nos últimos anos, em que as multinacionais adquirem escala por meio de aquisição de empresas menos eficientes, ampliando sua participação no mercado. Recentemente, um outro tipo de associação realizada pela Danone e a Mastellone (Argentina) teve como estratégia fortalecer sua participação no mercado brasileiro, com a aquisição da Leite Sol pela empresa argentina. (GAZETA MERCANTIL,1998)

Baixo nível de associativismo - Diante da estrutura de mercado, este desafio torna-se mais acentuado, pois, para enfrentar esta situação desfavorável (oligopsônio versus oligopólio), o pequeno produtor tem que se organizar na compra de insumos para propriedade, na venda conjunta da produção. A organização também fortalece a sua representação nos sindicatos, federações e permite que a classe seja ouvida, como recentemente nos movimentos SOS Leite.

Baixa produtividade - Analisando as estatísticas do setor, constata-se o índice de ineficiência, pois ainda ocupamos posição constrangedora no cenário internacional, com baixíssimo índice de produtividade. É notório que o estoque disponível de tecnologia é suficiente para melhorar em muito esta realidade.

Qualidade do leite - Caracterizada pela existência de matéria-prima de baixa qualidade e em pequena escala pela maioria esmagadora de produtores no País, espera-se que o processo de granelização do leite acene com a melhoria da qualidade, já que este leite será entregue em melhores condições do que as atuais, permitindo, em curtíssimo prazo, receber 100% do leite resfriado nas grandes indústrias (REVISTA LEITE BRASIL, 1998). Mas, para haver melhoria na qualidade do leite entregue para processamento, ainda é necessário muito trabalho de informação e sensibilização para que sejam mantidas as características intrínsecas do produto, que venham a agregar valor por meio da conscientização de práticas de obtenção higiênica da matéria-prima e normas que possibilitem o resfriamento, e que sejam revertidas em ganhos aos produtores. (PHILPOT, 1998)

Necessidade de gerência fina - Cada propriedade é um caso a ser analisado em particular. A administração deverá levantar informações por meio de levantamentos ou diagnósticos sobre as áreas da empresa rural. Seguidas as etapas de análise dos dados em grupo, onde serão conhecidos os principais gargalos. Existem várias metodologias aplicadas a essa fase, como apontam os estudos da UFLA, Grupos GEPAI e PENSA, entre outros; em especial as ferramentas da qualidade total são bem aplicáveis e facilitam a visualização do processo. Selecionadas as possíveis soluções, deverão ser discutidas com especialistas e só depois implementadas.

Tomada de decisão - Torna-se mais fácil quando o problema está quantificado e bem diagnosticado. Problemas que são levantados sem informações suficientes tornam-se difíceis de ser mensurados e, portanto, complicam a tomada de decisão. Cada propriedade tem suas peculiaridades, como mãode-obra, relevo, produção de alimentos, capital imobilizado, comercialização dos produtos etc., que necessitam de análises particulares. Portanto, cada caso é um caso. Não existe pacote (ou modelo) fechado para adoção, cada administrador tem que gerenciar a propriedade de acordo com suas potencialidades e fragilidades, e analisar os impactos que possam advir do ambiente externo à propriedade.

Assistência técnica - Exige-se muito do produtor mas há que se pontuar sobre a contrapartida das empresas particulares, cooperativas, empresas públicas e universidades. Ainda existe um longo caminho a ser percorrido entre essas instituições e o produtor, pois é do conhecimento geral que é satisfatório o estoque de tecnologia para alavancar a produção nacional, que ainda apresenta os índices medíocres de produtividade. Isso denota a falta de cooperação e integração da cadeia. . Enfoque sistêmico - Para BATALHA et ai. (1997), o enfoque sistêmico considera que todo sistema evolui no espaço e no tempo em conseqüência das mudanças internas e externas ao sistema. Uma cadeia de produção agroindustrial também estará sujeita a mudanças ao longo do tempo.

3. MUDANÇAS NA LEGISLAÇÃO DE LÁCTEOS (PNQL)

Na análise de cenários normativos do setor lácteo, é mister avaliar os impactos que as mudanças propostas pelo PNQL irão demandar dos produtores e da indústria de laticínios. As exigências propostas por meio de cronogramas para que a indústria de adapte ao regulamento, afetará os produtores diretamente. Definem-se portanto, novos parâmetros para que as indústrias possam adotar sistemas de pagamento pela qualidade, atendendo as exigências dos clientes. O leite recebido pelos laticínios deve ser avaliado quanto à sua aptidão como matéria prima. Parâmetros analíticos e critérios objetivos são ferramentas úteis na tomada de decisão, necessitando, entretanto, que um programa de Qualidade Analítica Assegurada seja implantado "a priori ". A mera adoção de metodologias oficiais e de referência (FIL/IDF, AOAC) preconizadas pelo Novo Regulamento, não são garantias de se obterem dados analíticos de qualidade, embora em muito contribuam para isso. Há que se garantir que os dados gerados sejam adequados ao uso e favoreçam a solução de problemas de avaliação de produtos. (SILVA ET AL, 1998)

4. APTIDÃO PARA PROCESSAMENTO INDUSTRIAL

Com a garantia de recebimento de matéria-prima com qualidade, a indústria poderá viabilizar e ampliar seu leque de produtos oferecidos ao mercado.

O leite considerado apto para ser industrializado deve ser encaminhado a determinada linha de processamento, requerendo características de qualidade específica, ou pré requisitos para processamento. A "qualidade" de um leite para fabricação de queijos submete-se a indicadores diferentes daqueles relacionados com a produção de leite UAT. Assim, não existe "qualidade do leite" e sim "qualidades de leites", com suas respectivas adequações ao uso industrial. Ao longo do processamento tecnológico, outros indicadores de qualidade, de fácil aplicação e rápidos, deverão ser monitorizados em pontos críticos de controle que garantam o nível de qualidade do produto. Ações corretivas, ágeis e eficazes, serão acionadas quando os limites críticos dos parâmetros medidos forem ultrapassados. Esse controle técnico exige sensibilização, motivação, conhecimentos e comprometimento dos colaboradores em toda a hierarquia da empresa. O produto acabado será resultado dos esforços empreendidos, sendo apto a atender os requisitos legais, técnicos e àqueles ditados pelo mercado. Novos indicadores de qualidade podem ser introduzidos, para verificação e validação do sistema. (SILVA et al.,1998)

5. PAGAMENTO DO LEITE PELA QUALIDADE - EXPERIÊNCIA DE OUTROS PAÍSES

Na análise do quadro abaixo, ficam evidenciados os objetivos do sistema de pagamento do leite pela qualidade, em que cada país adota critérios específicos para processamento de sua indústria em função do mercado que atuam.

Pretende-se fundamentar, que as cópias de plano para pagamento pela qualidade não devem ser realizadas, pois são na maioria das vezes, não adequadas à realidade dos países, dos produtores e de sua indústria.

6. TENDÊNCIAS DO AGRONEGÓCIO DO LEITE NO BRASIL

Durante o Congresso Nacional de laticínios realizado pela EPAMIG/CT-ILCT, realizou-se o workshop "Organização da Produção Primária - um desafio para a indústria de laticínios" onde pretendeu-se avaliar o cenário atual da cadeia de lácteos no País e os impactos das recentes transformações no setor em conformidade com os cenários tendenciais e normativos para orientar os dirigentes das indústrias de laticínios na tomada de decisões estratégicas. Com enfoque nos temas "Estruturação e desafios do setor de produção de leite; Contratos entre indústrias e produtores de leite; Tendências de mercado; Política para o setor leiteiro, Qualidade de leite e a Ciência e Tecnologia no Agronegócio do leite", discutiram-se, com profundidade, as recentes transformações no setor agroindustrial do leite que irão impactá-lo, provocando a necessidade de integração dos diversos elos da cadeia, com a opinião dos diversos segmentos e a obtenção de subsídios visando registrar as perspectivas para o desenvolvimento do setor.

A realização deste evento possibilitou a apresentação de vários documentos (REVISTAS LATICÍNIOS E LEITE & DERIVADOS, 1998), com a opinião dos diversos segmentos da cadeia do leite e obtenção de subsídios visando registrar as perspectivas para o desenvolvimento do setor. Este encontro procurou fortalecer a integração entre os participantes dos vários segmentos representados, e gerou o livro "Organização da Produção Primária - Um desafio para a indústria de laticínios", documento que procurou retratar fielmente as questões que afligem a cadeia do leite, na visão de seus melhores expoentes, traduzidos com a competência e responsabilidade de seus interlocutores.

O relator do evento, pesquisador da Embrapa Gado de Leite e prof. da UFJF, Dr. Paulo Martins, acredita que, no caso do agronegócio do leite, as transformações ocorridas e em curso são tidas como históricas por estudiosos. O consumidor assume posição privilegiada no processo, o que tem levado a uma reorientação de procedimentos na propriedade agrícola, na indústria, na distribuição e, principalmente, na redefinição de contratos entre os agentes, ainda que informais, visando ao acomodação de interesses. O setor começa a trabalhar sob a ótica de cadeia produtiva

No elo produção, fica evidente que as transformações económicas exógenas ao setor estimularam o aumento da produção e está tendo papel educativo, pois tem levado à busca de organização, no sentido de se negociar com outros elos e governo, relações e políticas públicas que salvaguardem os seus interesses A procura por obtenção de escala de produção e redução permanente de custos estão dando origem a um novo produtor, mais consciente e especializado. Parece ainda prematuro, contudo, precisar em que proporção e com que velocidade se dará a redução do número de propriedades que se dedicarão à atividade, como tem acontecido nos demais países. Mas deverá ser significativa nos próximos anos.

Os participantes do Workshop entendem que a abertura encontrou o segmento desarticulado e com dificuldades estruturais competitivas. Em função disto, torna-se necessário a adoção de políticas públicas definidas e de longo prazo; o fortalecimento do sistema cooperativista, com a profissionalização das práticas de gestão e fusão das unidades existentes; a promoção da representatividade dos produtores, para que seus interesses sejam considerados: a melhoria da qualidade ; e, a promoção de geração e difusão de tecnologias em níveis mais intensos Vêm como entraves à mudança a baixa escolaridade dos produtores, a falta de percepção das vantagens advindas com as transformações em curso e a falta de solidariedade entre os diversos elos que compõem a cadeia produtiva do leite.

Com relação a adoção de práticas contratuais entre a indústria e os produtores, concordam que ha dificuldades presentes, que precisam ser removidas, para que tais práticas possam ser universalizadas Relacionamento frágil e carência de fidelidade, falta de padronização da matéria-prima e irregularidade na quantidade entregue, foram alguns dos fatores levantados.

Esta discussão, rica em participação, levantou questões como a necessidade de melhorar o fluxo de informações entre os agentes que compõem a cadeia e os ganhos possíveis de serem imaginados, caso isso se dê, como o estímulo ao aumento de produtividade, à melhoria de qualidade e à regularidade. Uma outra abordagem referiu-se à questão social. Os "excluídos" necessitariam de treinamento, programas de reconversão produtiva e ações regionais, visando minimizar os problemas que deverão advir com a provável redução do número de produtores que atuam na atividade leiteira.

No elo indústria, deverá se intensificar o fenômeno que vem ocorrendo na economia mundial e nacional, em diferentes setores a tendência da concentração industrial. Isto trará dificuldades para laticínios de tamanho médio e cooperativas, na medida em que o fenômeno cria naturais barreiras ao crescimento de firmas, por diferenciação de produto marketing junto a consumidores e varejistas, bem como a modernização tecnológica competitiva, que leva permanentemente ao lançamento de novos produtos.

A ascensão do supermercado na cadeia, como elo cada vez mais importante na comercialização. por um lado, permite a redução do preço final do "mix de produtos comercializados, já que este apresenta aquisição de altos volumes e gira com maior rapidez o estoque. Por outro lado, contudo, os supermercados atuam com características de mercado imperfeito, ao contrário das padarias, e podem negociar preços e prazos de pagamentos em condições mais favoráveis que aquelas, além de terem condições administrativas e financeiras de participarem do mercado internacional, com aquisições. Estes fatores deverão, cada vez mais, pressionar o segmento laticinista, com reflexos no elo produção

As apresentações realizadas no Workshop sinalizam para uma tendência de queda dos preços médios dos produtos lácteos. Isto fica mais evidente no segmento de produtos que começam a apresentar características de commodities, como é o caso do mercado de queijos e iogurtes, por exemplo. Houve um grande debate quanto à questão do mercado informal. que vem crescendo em termos absolutos e relativos, além de estar melhorando a qualidade do produto ofertado O combate a esta questão, passaria por ações de governo, que perde em arrecadação de impostos que poderiam advir desta parcela, estimada em quase a produção total de leite da Argentina Ainda assim, é de fundamental importância a implementação de mecanismos de pressão de produtores, indústria e varejo junto ao governo, para que medidas coercitivas selam implementadas.

Quanto à geração de conhecimento para o setor, a percepção é que o país detém estoque razoável, mas o setor privado precisa investir mais neste tópico, já que o ônus hoje recai quase que totalmente sobre as esferas governamentais. A formulação de novos objetos de pesquisa deverá ser induzida e também apresentar um novo enfoque, considerando o envolvimento multidisciplinar e a visão de cadeia.

Torna-se necessária, enfim, a ação articulada de todos os segmentos da cadeia, para a realização permanente de estudos que objetivem entender as mudanças em curso no mercado, visando convencer a opinião pública e o governo, da importância desta cadeia produtiva, sob a ótica da geração de renda. emprego e da segurança alimentar. Somente assim, políticas públicas poderão ser desenhadas, sem que haja prejuízos á saudável competição instalada, e ao consumidor, referência maior desta cadeia produtiva em estruturação. (MARTINS apud EPAMIG, 1999).

7. CONCLUSÕES

As recentes transformações pelas quais tem passado o setor de lácteos no país refletem mudanças estruturais percebidas em todo o mundo. O cenário descrito anteriormente, indica a necessidade de adequação dos diversos setores, pois refletem num novo perfil de produção e industrialização de lácteos no país.

O gerenciamento do agronegócio do leite no país indica a necessidade de conhecimentos mais aprofundados não somente no aspecto relacionado à produção de leite, retratado pelos indicadores de desempenho; requer conhecimentos gerenciais para facilitar a tomada de decisão, e principalmente o acompanhamento do mercado, das políticas públicas, e efetiva integração dos elos da cadeia. É importante que a visão segmentada seja substituída pela integração, reforçando os elos, que os atores atuem como parceiros, que sejam competitivos. Este é portanto, o grande desafio do setor.


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