08/05/2011 às 08h04min - Atualizada em 08/05/2011 às 08h04min

O cuidado com a sanidade e nutrição dos bezerros

Revista Rural

O cuidado com a sanidade e nutrição dos bezerros garante o sucesso para a produção pecuária, principalmente para a de corte, que pretende repor o que foi perdido desde a crise do boi de 2005. 

Nesse período, os animais nascidos sofrem mais estresse e ficam mais predispostos a doenças. Os meses de novembro a janeiro são ideais para realizar a monta, para que o nascimento da bezerrada se concentre nos meses de setembro e outubro [confira a tabela desenvolvida pela Embrapa Gado de Corte, que mostra o manejo anual com o gado]. Na gestação, as vacas prenhes devem ser separadas, pelo menos, no último mês de gestação, em um pasto maternidade de fácil acesso, boa qualidade de pasto e água e carga-animal adequada. 
De acordo com a médica veterinária e especialista em virologia da unidade de pesquisa de Campo Grande, Vanessa Felipe de Souza, todo esse trabalho deve levar em conta qual o objetivo de produção dentro da propriedade, quais os recursos que ela dispõe, em termos de ambiente e clima, além de ser acompanhado por um responsável técnico especializado para melhor identificar e pautar o trabalho de sanidade na fazenda.

A cura do umbigo

Ao nascer, o bezerro tem de receber um tratamento imediato de assepsia [limpeza de germes] no umbigo – esse tratamento é conhecido no campo como a ‘cura do umbigo’. Esse procedimento evitará que se desenvolva bicheiras, ocasionadas por larvas de moscas que possivelmente poderiam ser depositadas no local.

O umbigo deve ser cortado na medida de dois dedos (aproximadamente 4 centímetros) e colocado em imersão durante 2 a 3 minutos numa solução de iodo a 10% puro. Segundo Souza, o produto é barato e facilmente encontrado em qualquer estabelecimento de produtos veterinários.

Os bezerros ‘curados’ deverão ser revisados até a completa cura. “Isso vai depender do animal, mas, via de regra, o tempo dessa cura completa gira em torno de sete a 15 dias”, explica a pesquisadora.

Amamentação

A produção de bezerros fortes, saudáveis e resistentes a doenças também dependerá fundamentalmente do colostro mamado nas primeiras seis horas de vida do animal. De acordo com os especialistas da Embrapa, o consumo adequado do colostro e a assepsia bem feita do umbigo podem ser responsáveis por 70% da prevenção das doenças nos bezerros.

O colostro é a primeira secreção da glândula mamária, tem grande valor nutricional e transmitirá os anticorpos da mãe para o filho, com o objetivo de fortalecê-lo imunologicamente. As primeiras seis horas de ingestão desse alimento, logo após o nascimento, garantem a proteção necessária ao bezerro. Nos bovinos, a passagem de proteção contra as doenças, da mãe para o filho através da placenta, dificilmente acontece, deixando o bezerro praticamente sem imunidade, daí a importância do primeiro leite.

Desta forma, a vaca transfere para o bezerro a sua experiência imunológica que vale para os primeiros meses de vida, quando ainda não conseguem desenvolver plenamente a sua própria imunidade.
Além de transmitir os anticorpos necessários e ser rico em termos nutricionais, o colostro possui também um efeito laxativo muito importante, sendo responsável pela eliminação do mecônio, que são as primeiras fezes do recém-nascido.

É importante lembrar que para uma boa produção do colostro, a fêmea tem de estar bem nutrida. A deficiência alimentar pode afetar o trabalho de parto normal por deficiências hormonais; ocasionar uma produção de colostro de baixa capacidade de proteção e também refletir no tamanho do recém-nascido e nas condições iniciais do filhote para procurar o alimento. Neste ponto, tem muita influência a habilidade materna, que varia com a experiência da fêmea, as condições ambientais onde se encontra o rebanho e o estado de bem-estar dos animais.

Manejo com os animais

Com base na época de nascimento, é indicado que os criadores agrupem os animais em lotes, como forma de facilitar e uniformizar o manejo dos bezerros. “Misturar as categorias de animais poderia acarretar a disseminação de doenças de um lote a outro”, argumenta Vanessa Souza, pesquisadora da Embrapa. “Um grupo de animais resistentes a determinadas doenças poderiam transmiti-las ao lote mais suscetível a elas, prejudicando o manejo sanitário”.
Aliada a essa separação de categorias, o pasto ideal é que esteja livre limpo sanitariamente, livre de agentes que possam encadear doenças. 

De acordo com a médica veterinária da Embrapa, é importante que um técnico especialista avalie a área onde serão postos os animais e está em condições de receber os animais.
É recomendável evitar o manejo intensivo em currais e bretes. “Essa medida contribuirá para não estressar os animais e evitar pisoteio das crias. É importante lembrar que fêmeas com cria ao pé costumam ficar mais sensíveis”, destaca Souza.

Em termos de alimentação, as pastagens para bezerros em aleitamento devem ser de espécies de alta qualidade, caracterizadas por elevados teores de proteína, baixos teores de fibra, alta digestibilidade e boa aceitação. Para este fim, é sugerido o uso de piquetes com capins, como grama ‘coast-cross’ [tipo de forrageira, perene, subtropical, híbrida, desenvolvida na Geórgia, EUA, pelo cruzamento entre espécies de Cynodon (grama-bermuda). 

É resistente ao frio, tolerando bem geadas. Apresenta bom valor nutritivo (teor protéico: 12 a 13%), alta produção (20 a 30 t/ha/ano de matéria-seca) e alto nível de digestibilidade (60 a 70%)], milheto ou leguminosas como os estilosantes Mineirão ou Leucena. Para bezerros de corte criados a campo, sugere-se o plantio de pequenas áreas, cercadas, dentro da invernada de cria, destinada somente aos bezerros (sistema creep-grazing).

Sanidade

A vermifugação dos bezerros deve ocorrer a partir da desmama, até a idade de 24 meses, com vermífugos de largo espectro, o que significa que eles atuam contra todas as espécies de vermes, e que possua um princípio ativo eficaz às necessidades do animal. “Não existe um princípio ativo com propriedades mágicas”, explica a especialista. “O mais indicado é fazer um exame de fezes, com contagem de OPG (ovos por grama) e coprocultura [exame que detecta a cultura de microrganismos] e, a seguir, um teste de resistência dos parasitos aos vermífugos para escolher qual a droga mais indicada e evitar o problema de resistência aos produtos”.

A vacinação contra a brucelose deve ser ministrada, em dose única, no período de novembro a junho seguinte ao nascimento, somente nas fêmeas com três a oito meses de idade. Elas devem ser marcadas com um ‘V’ na ‘cara esquerda’ acompanhado do último dígito do ano de vacinação. A este manejo pode ser associada a vacina contra carbúnculo sintomático (vacina polivalente) entre quatro e seis meses. Esta deve ser repetida seis meses após.
Em áreas onde ocorre o botulismo, os bezerros devem ser vacinados aos quatro meses, repetindo a dose após 40 dias e anualmente.

A vacina contra a raiva bovina é recomendada somente em áreas onde a doença ocorre e deve ser dada anualmente, no mês de julho. Dependendo do tipo de exploração pecuária (cria, recria ou engorda) pode-se utilizar vacinas com períodos de proteção diferentes. Deve ser associada à vacinação dos cães, eqüídeos e ao controle dos morcegos hematófagos na região.
É importante vacinar os bezerros contra paratifo (salmonelose) entre os 15 e 20 dias de vida. Recomenda-se também que as vacas sejam vacinadas contra o paratifo no oitavo mês de gestação. 

A diarréia é um sinal da doença. Nestes casos a melhor indicação para o tratamento deve ser dada pelo médico-veterinário.
Para que os animais respondam adequadamente às vacinas eles precisam estar em um bom estado nutricional, o que depende da disponibilidade e de boa qualidade de pastagens, associada a uma suplementação mineral própria para a região, à vontade, no cocho, durante o ano inteiro.

O acompanhamento de um médico-veterinário, diante de um cronograma sanitário adequado, garantirá a administração correta das vacinas (com a sugestão das que são realmente necessárias ao rebanho), o diagnóstico de doenças e a prescrição de medicamentos necessários ao rebanho.

Febre aftosa

O calendário de vacinação contra a febre aftosa foi unificado de maio a novembro. Bahia, Espírito Santo, Rio de Janeiro e 530 municípios da região leste de Minas Gerais atuarão na vacinação dos rebanhos juntamente com os estados de São Paulo, Mato Grosso, Mato Grosso do Sul, Paraná, Tocantins, parte de Minas Gerais e Distrito Federal. “

O calendário foi unificado pelo Programa Nacional de Erradicação e Prevenção da Febre Aftosa (PNEFA) a pedido do Fórum Nacional de Executores de Sanidade Animal (FONESA), que representa os serviços veterinários estaduais e faz parte dos esforços das autoridades sanitárias brasileiras para a erradicação da febre aftosa no Brasil até 2010”, declarou o secretário de Defesa Agropecuária, Inácio Kroetz. 

A mudança permitirá que as etapas de vacinação na maior parte do Brasil sejam promovidas na mesma época, o que facilitará o trânsito de animais.
Na região do planalto, de acordo com a Embrapa Gado de Corte, são vacinados todos os animais, com menos de um ano de idade, no período de 1 a 28 de fevereiro; todos os animais com menos de dois anos de idade no período de 1 a 30 de maio e todos os animais da propriedade entre 1e 30 de novembro. 

Na região do Pantanal são vacinados todos os animais da propriedade uma vez no ano, ou no período de 1º de maio a 15 de junho, ou de 1º de novembro a 15 de dezembro. Recomenda-se que toda vez que houver saída de bovinos do Pantanal, revacinar se já houver passado seis meses da última vacinação.

Perguntas freqüentes

Como evitar a pneumoenterite dos bezerros e como tratá-la?

A pneumoenterite é uma doença que ataca ao mesmo tempo os pulmões e os intestinos e é comum em animais jovens que não tem a imunidade totalmente estabelecida. Para evitá-la as fêmeas devem ser vacinadas durante o oitavo mês de gestação. Se a mãe não for vacinada, o recém-nascido pode ainda tomar a vacina aos 15 e 30 dias de idade.

O tratamento da pneumoenterite, prescrito pelo médico veterinário, deve ser feito com antibióticos e fluidoterapia – procedimento de administrar líquidos aos animais que apresentem alguma doença debilitante como desidratação (aplica-se, geralmente por via endovenosa uma determinada quantidade de fluído (solução fisiológica, glicose, etc) – dependendo do estado do animal.

O que é, qual a causa e como tratar a fotossensibilização em bezerros?

A fotossensibilização hepatógena em bezerros é causada por um fungo que se desenvolve no material seco do pasto, principalmente em pastagem de braquiária. Ocorre geralmente após a desmama, quando o bezerro passa a se alimentar exclusivamente da pastagem. 

Essa doença, também conhecida como requeima, é bastante comum e pode ser identificada por sinais observados em exames clínicos, como lesões semelhantes a queimaduras na pele, às vezes mucosas amareladas, desidratação, apatia, entre outras características. 

A primeira providência, nos casos de fotossensibilização é a mudança dos bezerros para outro pasto de espécie forrageira diferente, que tenha sombra. O tratamento consiste na aplicação de protetor hepático, anti-histamínicos e hidratantes. Nas lesões da pele, devem ser aplicadas pomadas anti-sépticas e cicatrizantes.

A partir de que idade os bezerros devem ser vacinados contra o carbúnculo sintomático e a gangrena gasosa?

Pode-se vacinar a partir de três a quatro meses de idade, embora na prática, eles sejam vacinados aos seis meses, com um reforço aos 12 meses. Em áreas de alto risco de ocorrência da doença, recomenda-se vacinar os bezerros a cada seis meses, até a idade de dois anos.

Como fazer o tratamento do curso de sangue?

O tratamento do curso de sangue [caracteriza-se por uma diarréia com sangue, também chamada curso negro] deve ser feito o mais rapidamente possível com medicamentos à base de sulfa, um grupo de antibióticos sintéticos utilizados para tratar infecções. Conforme o caso, também há necessidade de que sejam repostos os líquidos perdidos, pelo emprego de fluidoterapia, ou até mesmo por transfusão sangüínea. 

FÁBIO MOTINHO é jornalista e repórter da Revista Rural impressa e do Programa Revista Rural, com passagem por programas de televisão especializados e mais de cinco anos de experiência na comunicação rural. Colabora com a Revista Rural desde 2008. 

 


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