08/05/2011 às 08h03min - Atualizada em 08/05/2011 às 08h03min

O empurrão que faltava na produção leiteira

Revista Rural

Adotar ou simplesmente adaptar à sua realidade ao modelo de sistema, gestão e tecnologia que a fazenda do vizinho segue nem sempre é a melhor solução para aumentar a eficiência e a lucratividade de seu negócio, correto? Um dado preocupante apontado no Diagnóstico da Cadeia Produtiva de Leite em Goiás, realizado pela Federação da Agricultura e Pecuária de Goiás (Faeg), revela que as principais fontes de informação sobre a produção de leite, citadas pelos participantes, foram programas de televisão, 29,8%, e vizinhos, com 23%. A pesquisa realizada 2009 incluiu os três segmentos de produção, indústria e varejo, sendo que para elaborar o segmento da produção foram entrevistados 500 produtores, cobrindo todas as microrregiões da unidade federativa em questão.


Os dados retratam a realidade do Estado que é terceiro maior produtor de leite do País, com volume estimado em 2.874 bilhões de litros por ano, segundo o Censo divulgado em 2009 pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). Essa produção representa 10% do Produto Interno Bruto (PIB) goiano, o trabalho de 60 mil produtores e demanda a mão de obra de 220 mil pessoas, direta e indiretamente. No entanto, é válido lembrar que esses números não demonstram a melhor condição do Estado, que em 2000 ocupava a vice-liderança no ranking da produção nacional do leite. 


Para Alfredo Luiz Correia, diretor executivo do Sindicato das Indústrias de Laticínios no Estado de Goiás (Sindileite), é importante salientar que diversos fatores têm interferido no crescimento da produção estadual de leite em Goiás, como falta de assistência técnica, inexistência de políticas eficazes de renda, dificuldades em gerenciamentos de custos e riscos da atividade, desestímulo ao produtor e a crise financeira econômica, que atingiu o mundo em 2008 e 2009.


Enquanto cerca de 11% dos produtores consultados pela Faeg para a realização do Diagnóstico têm a pretensão de abandonar a atividade em curto prazo, 65% deles pretendem, nos próximos anos, melhorar a tecnologia e aumentar a produção. Nesse sentido, quando o assunto é produtividade, o consultor técnico em Pecuária Leiteira da Premix, Liéber de Freitas Garcia, salienta os caminhos a serem desbravados nacionalmente. "Alguns fatores das equações brasileiras sobre produção média/vaca, produção/ha/ano, entre outras, ainda deixam a desejar para um país que almeja um papel melhor e mais atuante no cenário internacional. No entanto, para que se obtenha esse aumento em produtividade, é necessária utilização contínua e orquestrada de ferramentas como genética, manejo reprodutivo, bem-estar animal, sanidade e nutrição adequadas, evitando-se assim gastos e ampliações desnecessárias com rebanhos ou áreas produtivas: a afamada eficiência produtiva", pontua, destacando que, atualmente, a indústria tem se preocupado em bonificar o produtor pela melhor qualidade de seu produto.


Dentro deste contexto, Goiás conta com uma iniciativa pioneira que visa dar apoio, orientar, capacitar e treinar produtores de leite, funcionários das propriedades rurais, associações ligadas ao segmento da produção leiteira, profissionais que trabalham oferecendo assistência técnica, além de instituições de ensino. Trata-se do Programa Piracanjuba Pró-Campo, realizado pelo Laticínios Bela Vista no Centro de Apoio Técnico aos Produtores de Leite Piracanjuba, localizado em Bela Vista de Goiás. A ação teve lançamento em março deste ano e até a segunda quinzena de setembro já havia promovido o treinamento de mais de 300 pessoas, com previsão de alcançar quinhentas até o final de 2010 e dobrar esse número no decorrer de 2011.

Como funciona

O Centro funciona como uma fazenda-escola e possui área de aproximadamente 45 hectares, composta por unidades operacionais para recria de reprodutores de raças leiteiras, treinamento de mão de obra para inseminação artificial de raças leiteiras e produção de leite. A capacidade atual de hospedagem comporta 14 pessoas, sendo que novos alojamentos estão em fase de finalização. Os alunos passam uma semana no local - de segunda a sábado - tendo aulas ministradas por profissionais do Serviço Nacional de Aprendizagem Rural (Senar - GO) e da CRV Lagoa. Segundo Luiz Magno de Carvalho, diretor de Expansão do Laticínios Bela Vista, e José Paulo Felipe, Gerente de Política Leiteira, essa oportunidade é oferecida ao produtor, independentemente se ele é ou não fornecedor da empresa. Para participar não há custos, o único gasto que o participante tem é com seu deslocamento até o Centro de Apóio, que conta também como uma unidade de recria e venda de touros da raça Holandesa para fazer repasse àqueles que desejam fazer a melhoria genética de seus rebanhos.


Os treinamentos ocorrem três semanas por mês. Na semana em que não há, o local serve para a realização de dias de campo e Visita Técnica, na qual são ministrados cursos de um dia para em torno de 25 a 30 pessoas. O grupo tem palestras sobre qualidade do leite, processo de obtenção e ordenha do leite, cria de bezerras, entre outros temas que são determinados de acordo com a época do ano, com as necessidades e a realidade do momento. 

Estrutura e Aprendizado

Na fazenda há 38 vacas em lactação, 20 novilhas na fase de 15 e 16 meses adquiridas recentemente e 26 bezerras descendentes dessas 38 vacas. São animais de sangue holandês com grau de sangue máximo 7/8 e ½ sangue Jersolando (Jersey e Holandês). A produção atual gira em torno de 800 litros dia. "É possível acompanhar toda a rotina de uma propriedade de leite, sistemas diferentes de ordenha, de recria de bezerros e de manejo de pastagens, por exemplo. Nossa intenção é passar conceitos, mostrar que técnicas simples ou de última geração funcionam, basta fazer correto. Muitas vezes o produtor tem determinado recurso, tem a mão de obra, mas falta informação e qualificação para atingir bons resultados. Existem casos em que não é preciso desembolsar para melhorar a atividade, é uma questão apenas de ajustar o manejo. Às vezes, são poucas as modificações", explicam Luiz Magno e José Felipe.


Os pecuaristas Euripedes Bassamurfo da Costa e Joaquim Mendonça Neto já enviaram funcionários para participarem da iniciativa e têm se mostrados satisfeitos com a motivação e os desempenhos demonstrados por suas equipes. O primeiro deles, que trabalha com pecuária leiteira desde 1996 mantém atualmente 150 vacas em lactação com produção diária de 3.500 litros no Sitio Irmãos Costa (município de Itaberaí), afirma que além de uma melhora na produção houve também mudanças positivas no relacionamento interpessoal na propriedade. 


"A mão de obra qualificada e capacitada é fundamental para o bom rendimento do trabalho, sobretudo quando falamos no setor leiteiro, cuja importância passa tanto pelo fator social, quanto pelo econômico. Após passarem pelo programa, os colaboradores ganharam conhecimento e têm o dividido com os demais que ainda não passaram pelo treinamento ajudando até mesmo a corrigir algumas práticas do manejo diário. Esse fato certamente está favorecendo muito o entrosamento entre eles. Isso reflete direto na qualidade do leite que está com melhores índices de contagem bacteriana e de controle de células somáticas", ressalta Euripedes Bassamurfo que encaminhou dois de seus seis funcionários e pretende encaminhar todos os restantes ao Pró-Campo.


Joaquim Mendonça, da Fazenda Rafaella (localizada em Heitoraí), também enviou duas pessoas ao treinamento e além desses pontos destaca ainda a intensificação observada no procedimento de Inseminação Artificial. "A prática e os resultados obtidos com a técnica após o programa foram aprimorados em quase 100%. Todo o produtor que tiver condições deve investir na capacitação de seus colaboradores e incentivá-los. Trata-se de uma experiência na qual todos ganham", explica e recomenda o criador que desenvolve a atividade há cinco anos e atualmente conta com um plantel de 250 cabeças, com 78 vacas em lactação e produção de 1.300 litros/dia.


Além do Centro de Apoio Técnico aos Produtores de Leite, o Piracanjuba Pró-Campo conta com Unidades Demonstrativas de Produção distribuídas em 12 regiões e assistência técnica gerencial ao produtor. Cerca de 200 produtores já recebem esse serviço que é terceirizado e funciona com apoio financeiro dado pelo Laticínios Bela Vista nos quatro primeiros anos de adesão. Uma curiosidade é que a assistência técnica começou em outubro de 2009, antes mesmo do Pró-Campo. Luiz Magno e José Felipe comentam que nessas fazendas com acompanhamento já de um ano, é nítida a diferença em aumento de produtividade. 


"Quando aplicamos os treinamentos ou mesmo na assistência técnica fazemos uma avaliação com o treinando ou com o produtor para ver suas opiniões, o que pode ser aprimorado ou deixando a desejar. O feedback tem sido muito bom, pois o produtor está cedendo conhecimentos. A informação que chegou a ele foi proveitosa e ele quer mais para poder dar um passo seguinte e isso é muito gratificante. Nos dá uma enorme satisfação e por tudo isso esperamos que outras empresas nos tomem como modelo para que tenham iniciativas semelhantes a essa. O setor precisa se profissionalizar, tem muito espaço para melhorar", pontuam. 


O Programa, que tem parceria também com a Delaval, prestará gratuitamente o teste de carrapatograma, por isso, nos cursos já estão sendo explicados como fazer a coleta do carrapato, como armazená-lo e enviá-lo ao laboratório, que ficará pronto ainda neste ano. O Piracanjuba Pró-Campo tem também um comprometimento sócio-ambiental. O Centro conta com projetos de recuperação de nascentes e reflorestamento da mata ciliar com espécies nativas da região. Uma ação que está para ser implantada é a Poupança Verde, com o plantio de mogno, teca e acácia (um hectare de cada variedade). "Através dela, vamos mostrar ao produtor que ele pode trabalhar com algumas variedades de árvores cujas madeiras são nobres e vão proporcionar a ele uma renda extra daqui a 15 ou 20 anos", finalizam.

CINTIA ROCHA é jornalista e colaboradora da Revista Rural , com passagem por diversos veículos especializados no agronegócio e mais de sete anos de experiência no setor. Colabora com a Revista Rural desde 2004.

 


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