05/02/2011 às 16h59min - Atualizada em 05/02/2011 às 16h59min

O queijo de Coalho do Agreste de Pernambuco: História e Reputação

De acordo com o IBGE, em 2008, o Sudeste representa 37% da produção nacional em litros de leite seguida pelo Sul (30%), Centro-Oeste (15%), Nordeste (12%) e Norte (6%). Pernambuco, em 2008 foi o segundo maior produtor do Nordeste (21%) com 726 milhões de litros. A produção estadual de leite no ano 2008 (725.8 milhões de litros) tem a seguinte distribuição na origem territorial produtiva: Agreste 79,1%; Sertão 17,2%; Mata 3,7% e demais áreas 2%. O Agreste, principal região produtora de leite do estado de Pernambuco, também chamada de Bacia Leiteira corresponde a quase 25% do território pernambucano. A partir de dados do Sindicato das Indústrias de Laticínios e Produtos Derivados do Estado de Pernambuco (SINDILEITE) e da Agência de Defesa e Fiscalização Agropecuária (ADAGRO) em 2009, podemos avaliar que o estado possui 105 estabelecimentos registrados, seja pelo Sistema Federal (SIF - Selo de Inspeção Federal) ou Sistema Estadual (SIE – Selo de Inspeção Estadual); dos quais 78% produzem queijo de coalho tipo B ou tipo A, mostrando a forte tradição com aqueles que produzem no Estado. Seguindo dados do Ministério da Agricultura, Análise Pecuária e Abastecimento (MAPA), vários produtos agro-alimentares se diferenciam pela sua qualidade ou sua reputação devidas, principalmente, a sua origem (o seu lugar de produção). 

Essas diferenças podem estar ligadas a um gosto particular, uma história, um caráter distintivo provocado por fatores naturais (como clima, temperatura, umidade, solo, etc.) ou humanos (na especificidade , um saber fazer). Em alguns casos, os produtores e/ou os agentes de uma região se organizam para valorizar essas características, mobilizando um direito de propriedade intelectual: a IG. Esse permite preservar essas características ou essa reputação e valorizá-las em nível dos consumidores. No Brasil, além da proibição da imitação de uma IG conhecida, a partir de 1996, com o advento da Lei n° 9.279/1996 foi possível, também, registrar preventivamente esse nome geográfico no Instituto Nacional da Propriedade Industrial (INPI). A lei, entretanto diferencia duas espécies de IG, a indicação de procedência (IP) e a denominação de origem (DO). Sob orientação do INPI, no caso da IP, o solicitante deverá comprovar que a localidade tornou-se conhecida como centro de extração, produção ou fabricação do produto ou como centro de prestação do serviço, como por exemplo, reportagens de jornais e revistas, artigos científicos, livros, músicas entre outros. O objetivo do trabalho é comprovar a reputação do queijo de coalho do Agreste de Pernambuco a partir da análise e compreensão da sua história que, na contemporaneidade, se constitui um suporte ao processo de indicação geográfica e mais especificamente de indicação de procedência.

MATERIAL E METODOS
A busca pela reputação do queijo de coalho exigiu um trajeto que se fez a partir da demanda de criadores de gado leiteiro, como Luiz Dantas ”Acho que nosso queijo deveria ser patrimônio de Pernambuco. Ele fez parte da nossa cultura. Este está sempre na mesa de nossos conterrâneos nos fazendo lembrar-se da nossa história” (SEBRAE, 2007), na perspectiva inicial de obtenção de escrita sobre a história que estaria articulada na pesquisa por profissionais especializados. 

Considerando o objeto que foi investigado fomos inicialmente a uma investigação que buscou os primórdios da humanidade na produção do queijo, a partir de outros continentes que se fizeram relacionar em séculos posteriores o seu alcance com a pecuária no Brasil. Neste espaço, fomos buscar as fontes bibliográficas, arquivos do Instituto Arqueológico, Histórico e Geográfico de Pernambuco, Arquivo Público, Diccionário, Revistas, Almanaques, Álbum de Cidade, Jornais. Como metodologia, partimos com procedimentos que se inter-relacionaram no fazer histórico, com a compreensão sócio-cultural, no uso de fontes, como Memórias, no emergir das falas e lembranças sobre a aprendizagem do queijo em casa, entre o saber fazer, o degustar, o saborear, o sentir o cheiro, o comercializar, o cuidar, o aprender os cuidados na especificidade do Queijo de Coalho em Pernambuco.

RESULTADOS E DISCUSSÃO
A pesquisa revelou resultados que são inovadores, considerando a ênfase dada principalmente à trajetória da pecuária leiteira numa região que foi frente colonial desde o tempo da Capitania, nos seus caminhos como diz Capistrano de Abreu (1960, 1977) ao mesmo tempo em que fez emergir os Sertões no Brasil como espaço interiorano, numa sociedade até certo ponto de mais liberdade, sem que se dispensasse o homem escravo. No entanto, aonde a pecuária chegou foi também difícil ao indígena que ou se ausentou de maneira abrupta ou foi dizimado, trazendo nessas áreas o povoamento de muitas cidades do Agreste pernambucano. Contudo, tornou-se a pecuária até mesmo mantenedora da educação, que era prejudicada nos tempos coloniais em períodos de seca, com ausência de rendimentos de professores. Por sua vez, a pecuária leiteira na transição dos séculos XIX e XX no Agreste de Pernambuco já revelava uma forte tendência a se ampliar na área, considerando as raças de gado Limousin e Schwitz, francesa e suíça ( ÁLBUM DE GARANHUNS, 1920),que se assentariam em Garanhuns, Altinho e outros municípios do Agreste no entendimento de que a região já era portadora de grandes produtores de leite , assim como de seus derivados, de forma que o queijo era muito citado, a exemplo das cidades relacionadas na obra Diccionário Chorográfico, Histórico e Estatístico de Pernambuco de Sebastião de Vasconcelos Galvão, publicado pela Imprensa Nacional em 1908. Nas décadas seguintes já existia pelos criadores uma preocupação com a qualidade do gado e da carne, assim envolvendo o pasto e o que deste fosse circulado economicamente. O Governo de Estácio Coimbra chega a realizar sua participação em 1917 em Conferência no Rio de Janeiro ao se debater os cuidados com este setor da economia, principalmente voltados para a qualidade dos alimentos.

Nas décadas seguintes Pernambuco terá no dizer de Andrade (1961), a área denominada de Triângulo Leiteiro com indicação de municípios da Região em que seus produtores terão o queijo como processam na contemporaneidade, numa expansão que fez denominar a área conhecida como Bacia Leiteira do Estado de Pernambuco, cujo principal produto mais conhecido é o queijo de coalho.

Enquanto no campo jornalístico, vários são os periódicos que tem apresentado a distinção do queijo de coalho de Pernambuco, de maneira que tem se noticiado através do Diário de Pernambuco (15.08.2004), a possibilidade do queijo de coalho ser exportado. Em outro momento esse mesmo Jornal (08.10.2007), já divulgou o Queijo made in PE, referindo-se ao produto com atuação do SEBRAE na perspectiva da criação do selo para o produto do Agreste. O site Milk-point (07/12/2006) escreveu sobre o projeto de denominação de origem do queijo de coalho, em Pernambuco. Por sua vez, o SEBRAE, na sua Agência de Notícias (23.05.2006) apresenta o queijo com alvo de certificação no alcance de padrões físicos e químicos essenciais para a certificação de origem. Não obstante, se reconhece que Pernambuco vende mais leite do que derivados para outros estados (2007). Na obtenção da Indicação Geográfica o queijo pernambucano terá novas possibilidades no mercado, nesse âmbito no país. 

O Correio Braziliense (02/03/2007) avalia as qualidades do queijo na culinária. A Tecno Láctea & Sorvete Nordeste 2008 com produção na Internet tem divulgado a atuação do tecnólogo francês Benoit Paquereau em Encontro que trata da cadeia produtiva de alimentos na Região Nordeste. Aparece o Queijo de coalho com tradição e grife na 7° revista Inovação em pauta publicada pela Financiadora de Estudos e Projetos (FINEP) em 2009. Ao termos o entendimento das repercussões que levam também por outros jornais brasileiros a divulgação do Queijo de coalho do Agreste de Pernambuco fez surgir entre os representantes do Comitê Estratégico da Pecuária Leiteira de Pernambuco (CEPLEITE), composto por mais de 30 Instituições públicas e privadas a necessidade de criar o Museu do Queijo de Pernambuco a ser sediado na cidade de Garanhuns, centro da Bacia Leiteira que atualmente conta com mais de 40 municípios.

CONCLUSÃO
Os resultados da pesquisa apontam referenciais relevantes para comprovar a reputação do queijo de coalho do Agreste de Pernambuco desde o tempo da Capitania até os tempos contemporâneos. A pecuária aparece acompanhar a interiorização do estado de Pernambuco para se fixar na região do Agreste, em que permanece até hoje. As falas sobre o queijo de coalho mostram a manutenção do saber-fazer ancestral, tornando o produto conhecido e identificado regionalmente e nacionalmente, conforme se apresenta através das publicações citadas; justificando do ponto de vista histórico e cultural a abertura de um processo para reconhecimento do queijo de coalho do Agreste de Pernambuco como produto de Indicação Geográfica.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
ÁLBUM DO MUNICÍPIO DE GARANHUNS – anos 20(s/d).
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MILKPOINT, Benoit Paquereau fala sobre o projeto de denominação de origem do queijo de coalho, em Pernambuco.. Acesso 07 de dezembro de 2006.
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SEBRAE. Agência de Notícias . 2007, 2010

Autores:
Maria Giseuda de Barros Machado
Professora Ms. da UPE – Universidade de Pernambuco – Garanhuns, PE.
E-mail: machadoarros@yahoo.com.br
Benoit Pascal Dominique Paquereau
Mestrando, pesquisador do ITEP – Instituto de Tecnologia de Pernambuco – Recife, PE.
E-mail: bpaquereau@gmail.com
Sonia Romualda Napoleão Carvalho
Especialista, bolsista da SECTMA – Secretaria de Ciência, Tecnologia e Meio Ambiente – Recife, PE.
E-mail: sonia_rnc@hotmail.com


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