06/02/2010 às 16h36min - Atualizada em 06/02/2010 às 16h36min

Uso de fontes de gordura na ração enriquece leite de vaca, aponta pesquisa da USP

Agência USP

A adição de fontes de gordura na ração de vacas leiteiras faz o leite produzido apresentar em sua composição ácidos graxos linoléicos conjugados (CLA), denominados cis9/trans11 e trans10/cis12, que são muito benéficos ao consumo humano, mostra uma pesquisa da Faculdade de Medicina Veterinária e Zootecnia (FMVZ) da USP.

“Na literatura científica existem diversos estudos que mostram que esses dois ácidos graxos estão associados a efeitos biológicos como anticarcinogênese, antiaterosclerose, inibição de radicais livres, alteração na composição e no metabolismo do tecido adiposo, imunomodulação, atividade antibacteriana e antidiabéticas e favorecimento do melhor crescimento humano”, destaca o zootecnista José Esler de Freitas Júnior, autor do estudo.

A pesquisa faz parte do mestrado de Freitas Júnior e foi apresentada em dezembro de 2008 ao Departamento de Nutrição e Produção Animal (VNP) da FMVZ, situada no campus de Pirassununga da USP, sob a orientação do professor Francisco Palma Rennó.

De acordo com Freitas Júnior, dependendo da fonte de gordura que é oferecida na dieta, acontece no rúmen (o primeiro compartimento do estômago de ruminantes), com a ação de grande número de espécies de bactérias, a produção de CLA (cis9/trans11 e trans10/cis12) a partir da biohidrogenação do ácido linoléico e linolênico por meio de enzimas específicas. A biohidrogenação é o processo de alteração da gordura ingerida no rúmen.

Na pesquisa, as fontes de gordura adicionadas às dietas experimentais são ricas em ácidos graxos linoléico e linolênico: óleo de soja refinado, grãos de soja in natura e um suplemento alimentar comercial a base de sais de cálcio de ácidos graxos de óleo de soja.

O trabalho recebeu, no mês passado, o “Prêmio Professor Titular Félix Ribeiro de Lima” de melhor dissertação de mestrado de 2008. Já Freitas Júnior foi premiado como o melhor aluno de pós-graduação do VNP do ano de 2008. A premiação é oferecida durante o Simpósio de Pós-Graduação e Pesquisa do VPN, que teve sua terceira edição no último mês de dezembro.

Dietas
Os testes foram realizados com 12 vacas da raça Holandês, no terço médio da lactação (cerca de 135 dias). Os animais tinham aproximadamente 580 quilos, produção média de 25 litros de leite por dia e foram acompanhadas cerca de um ano antes do período experimental quanto ao histórico produtivo e apresentavam características homogêneas.

O pesquisador ofereceu três tipos de rações com adição de fontes de gordura, sendo todas fornecidas com a participação da silagem de milho: na primeira, ração com inclusão de óleo de soja refinado; na segunda, a fonte de gordura usada foi o grão de soja in natura; e na terceira, o suplemento comercial composto de ácidos graxos complexados com cálcio. “A formulação deste suplemento foi desenvolvida para suprir a energia e os ácidos graxos essenciais que faltam na dieta e que não podem ser obtidos das fontes convencionais”, aponta o zootecnista. O grupo controle foi alimentado com uma ração comumente observada em fazendas, a base de milho moído e farelo de soja, utilizando como volumoso a silagem de milho, com um teor de gordura total em torno de 3%. Já nas dietas com adição de gordura, esse teor girava em torno de 5%.

As vacas foram divididas em 3 grupos de quatro animais, de forma que cada grupo foi alimentado durante quatro períodos (19 dias, sendo 12 de adaptação à dieta e 7 de coleta de amostras). Este delineamento experimental é chamado de quadrado latino, em que todos os animais passaram por todas as dietas. Cada vaca foi ordenhada mecanicamente duas vezes ao dia.

Resultados
Os testes identificaram 41 ácidos graxos presentes no leite dos animais. Alguns desses ácidos, como o cis9/trans11 e o trans10/cis12, foram observados apenas nos animais que receberam as dietas com adição de fontes de gordura. Em níveis gerais, todos os animais foram beneficiados com a dieta.

“A presença do ácido graxo trans10/cis12 promoveu uma pequena redução o teor de gordura do leite dos animais alimentados com as dietas contendo o óleo de soja e o produto comercial”, aponta o pesquisador. Segundo ele, normalmente o teor de gordura no leite produzido por vacas da raça Holandês varia entre 3,0 a 3,5%. Na pesquisa de Freitas Júnior, o grupo controle apresentou um teor de 3,07%; os animais alimentados com óleo de soja, 2,96%; com grão de soja in natura, 3,35%; e com sais de cálcio, 2,83%.

“Atribuímos esse resultado à teoria da biohidrogenação, pois ocorre uma pequena redução do teor de gordura no leite quando há aumento das concentrações de CLA mais especificamente o ácido graxo trans10/cis12, que possui efeito sobre a síntese da gordura do leite dos animais”, explica o zootecnista.

As vacas submetidas às rações experimentais não apresentaram diferença no consumo de energia, apesar de ocorrer uma alteração na ingestão de alimentos nos animais submetidos a ração contendo suplemento comercial. “Isso ocorreu devido a maior eficiência de aproveitamento de nutrientes”, aponta o pesquisador.

Freitas Júnior lembra que animais no final de gestação e início lactação precisam aumentar o consumo de energia. “Além dos efeitos biológicos benéficos para a saúde humana por meio dos ácidos graxos CLA presentes na gordura do leite, aumentar a densidade energética da ração com a inclusão de fontes de gordura, aliada à maior ingestão de ração, representa uma das alternativas para obtenção de benefícios fisiológicos e produtivos do ponto de vista da produção animal”, destaca o zootecnista. “Esta é uma das linhas de pesquisa do professor Palma Rennó”, completa.

Os resultados obtidos mostram que as fontes de gordura utilizadas representam um boa opção para enriquecer o leite. Mas Freitas Júnior pondera que ainda será necessário dar continuidade ao estudo para detalhar os resultados obtidos. O pesquisador continua pesquisando o tema, agora em seu doutorado, sob a orientação do professor Mauro de Oliveira Dal Secco, da Universidade Estadual Paulista (Unesp), campus Jaboticabal, sendo que toda a parte experimental e analítica será realizado no Departamento de Nutrição e Produção Animal da FMVZ, em Pirassununga, sob co-orientação do professor Francisco Palma Rennó. Valéria Dias

Mais informações: (19) 3565-4248, email joseeslerfjr@usp.br, com José Esler de Freitas Júnior, ou email francisco.renno@usp.br, com o professor Francisco Palma Rennó

 


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