15/05/2012 às 16h07min - Atualizada em 15/05/2012 às 16h07min

Ovinocaprinocultura na Agricultura Familiar

Historicamente, a agricultura familiar é mundialmente reconhecida por sua grande contribuição na produção de alimentos destinados às necessidades básicas de alimentação da população humana. No Brasil, estima-se que esta participação atinja até 50%, notadamente, naqueles produtos considerados de subsistência, como nos casos da mandioca, feijão, leite, aves e suínos. De não só menos importância é a garantia de manutenção da produção de alimentos para abastecimento do mercado interno nas diversas crises conjunturais.

Por suas características de produzir e de garantir estabilidade na produção de alimentos básicos para o mercado interno, no Brasil, inúmeros programas de caráter compensatório foram articulados e implantados em diversos Planos Nacionais de Desenvolvimento. Rotulada como agricultura de baixa renda, agricultura de subsistência ou pequena produção, em prol da afirmação da agricultura familiar foram criados vários programas de desenvolvimento rural. Nesta linha, são bem lembrados o Programa de Colonização da Transamazônica, o POLONORDESTE, o Projeto Nordeste, o Programa de Apoio ao Pequeno Produtor, o PROHIDRO, os loteamentos em áreas reformadas, os reassentamentos em margens de grandes barragens, entre outros.

De caráter assistencialista, fundamentados em subsídios e ações causadoras de dependência, estes programas não são bem avaliados em termos de eficácia, no que se refere ao cumprimento de seus objetivos e metas. Ao contrário, estudiosos do assunto têm produzido avaliações baseadas em relatórios que apontam para resultados quantitativos em termos de atendimento, sem que se encontrem referências significativas em termos de diferenciação sócioeconômica na grande maioria das comunidades rurais. Constata-se que as prioridades estabelecidas em cada um dos programas carreavam recursos para infra-estrutura, destinando-se grandes somas para construção de estradas, instalações elétricas, moradias, etc., postergando para um segundo plano as ações que poderiam concorrer para emancipação econômica desse segmento produtivo.

Atualmente, em um contexto de crise que se caracteriza fortemente pelo agravamento da questão ambiental e do desemprego crescente, as propostas que preconizam o soerguimento da agricultura familiar perdem de vista o caráter assistencialista, colocando o seu fortalecimento como estratégico e indispensável para promover o desenvolvimento rural brasileiro.

Neste novo contexto, emerge o Programa de Fortalecimento da Agricultura Familiar - PRONAF, entendendo que a sustentabilidade econômica e ambiental do agronegócio estará na estreita dependência do acesso desses agricultores ao conhecimento, sobretudo no que diz respeito às técnicas de gerenciamento, de organização da produção e de tecnologias.

Colaborando com a compreensão de que "o conhecimento", nesta nova era, está elencado como um dos principais fatores de produção e imbuída no cumprimento de sua missão de viabilizar soluções tecnológicas para o desenvolvimento sustentável do agronegócio da ovinocaprinocultura tropical, A Embrapa Caprinos, em sintonia com as do Governo Federal, vem em parceria com outras entidades no mundo rural, disponibilizar produtos e serviços à agricultura familiar brasileira, através de instrumentos específicos de transferência.

É assim que ao elaborar, recentemente, seu Plano de Marketing, com o objetivo de transferir o processo tecnológico - Terminação de Borregos em Confinamento - para 5000 produtores nordestinos, a Unidade prevê em suas metas beneficiar cerca de 2500 agricultores familiares. Acrescente-se que o processo em referência se mostra como uma solução viável para que estes agricultores produzam carnes e peles nos padrões de qualidade exigidos pelo consumidor, o que lhes permitirá uma inserção mais justa e competitiva no mercado.

Neste mesmo raciocínio, diversas outras tecnologias e serviços já vem, de algum tempo, sendo disponibilizados para a organização familiar de produção, como bem ressalta o Jornal Gazeta Mercantil, de 23 de maio de 2000, citando que a Secretaria de Ação Social do Governo do Estado do Ceará e Incra, em parceria com a Embrapa Caprinos, vem realizando treinamentos de qualificação profissional em 34 Assentamentos de Reforma Agrária no Estado do Ceará nos dois últimos anos, contribuindo de maneira substantiva para a emancipação de 17 assentamentos até o final deste ano. A exemplo da opinião Secretário do Trabalho e Ação Social do Ceará, Edilson Azim Sorrime, reafirmamos: a ovinocaprinocultura é uma atividade de fácil manejo, lucrativa e com rápido retorno do capital investido.

Manejo da caatinga beneficia 3 mil famílias

Pelo menos 3 mil famílias de pequenos produtores rurais, no sertão do Ceará, já estão sendo beneficiadas com o manejo pastoril da caatinga, uma tecnologia aprimorada pela Embrapa Caprinos. A tecnologia é simples, e o resultado é um aumento expressivo na produção de caprinos, ovinos e bovinos, em pequenas propriedades.

O conjunto de processos, que vão da broca da vegetação lenhosa, preservando 200 árvores de por médio hectare, até o ajuste da carga animal, traz benefícios a todos. Os mais importantes, na avaliação do pesquisador João Ambrósio de Araújo Filho, que é o responsável pelo aprimoramento da tecnologia na Embrapa, são:

A recuperação de pastagens degradas; aumento da capacidade de suporte para 3 hectares por bovino adulto ou 2 a 2,5 ovinos ou caprinos, por hectare; aumento da produção de peso vivo de 8 quilos para 70 quilos, por hectare, o que corresponde a 25 quilos de carne; e melhoria da capacidade da pastagem no enfrentamento da seca.

REDUÇÃO: As áreas que vêm sendo submetidas ao manejo pastoril da caatinga, nos últimos períodos de seca, segundo, João Ambrósio Filho, tiveram a produção reduzida em cerca de 20%. Já as áreas onde o manejo tradicional predomina, a produção foi praticamente zero em anos de seca.

O manejo pastoril da caatinga, que agrega vários processos tecnológicos, nasceu na década de 70, pelas mãos de professores da Universidade Federal do Ceará. O aprimoramento começou a partir da década de 80, na Embrapa Caprinos. Hoje, a aceitação pela tecnologia está ganhando força. No estado do Ceará cerca de 30 mil hectares de caatinga já estão sendo explorados com essa tecnologia.

Um estudo do pesquisador João Ambrósio Filho revela que a caatinga nordestina vem sendo explorada pela pecuária há pelo menos 350 anos. Segundo ele, essa atividade teve o apogeu na segunda metade do século XIX, quando alguns estados se tornaram grandes exportadores de produtos pecuários. Ele lembra que toda a atividade tinha por base o uso da pastagem nativa. "Mas as secas ocorridas no final do século passado, possivelmente associadas ao estado de degradação das pastagens, determinaram a decadência da atividade pastoril", explica o pesquisador, ressaltando que "hoje cerca de 90% da demanda de produtos pecuários do Nordeste são atendidos pela importação".

A relação do homem branco com a caatinga, segundo João Ambrósio Filho, não é recente. Vem do século XVII, no rastro da pecuária que ocupava os sertões nordestinos.

Tudo começou ao longo das margens do rio São Francisco, que à época foi chamado de rio dos Currais, e de lá se projetando pelos sertões de Pernambuco, Piauí e Ceará.

"Mas a pecuária não foi a única atividade do homem nos sertões", garante o pesquisador. "A agricultura de subsistência seguiu os passos da exploração dos rebanhos. As práticas e métodos, ainda hoje adotados, consistiam no desmatamento, queima geral, plantio por uns poucos anos e abandono para repouso e recuperação".

João Ambrósio explica: "No início, devido a extensão das terras e a baixa demanda por alimentos, o período de repouso era prolongado, o que permitia a subsistência do solo e da vegetação. Hoje, já sabemos que esse intervalo deve ser de no mínimo 40 anos. Mas com o aumento da população e da crescente necessidade de se produzir mais, o período de repouso está reduzido a cerca de 10 anos, tempo necessário apenas para o atingimento da plenitude do estágio pioneiro da sucessão secundária da caatinga".



Central de inseminação é a nova unidade de negócio

O Estabelecimento Industrial e Comercial de Sêmen Caprino e Ovino, que é mais uma Unidade de Negócio da Embrapa Caprinos, está avançando. A venda de sêmen vem sendo feita para praticamente todo o Nordeste, com destaque para os estados da Bahia, Ceará, Pernambuco e Rio Grande do Norte.

Para o Distrito Federal, o repasse de sêmen tem sido feito à pesquisa e preservação de germoplasma. Ao preço médio de R$10,00 a dose inseminante, a Unidade dispõe de sêmen das raças caprinas Anglo-nubiana, Boer e Saanem; e ovinas, Morada Nova, Santa Inês e Somalis Brasileira.

A Embrapa Caprinos trabalha com o método da criopreservação, que é a congelação e manutenção de sêmen no nitrogênio líquido. De um grupo de 100 cabras inseminadas, com dose única, 80 ficam prenhes e reproduzem normalmente. Este índice é considerado excelente em nível de propriedade, segundo um estudo.

O pesquisador Aurino Alves Simplício, coordenador da área de reprodução, traça um paralelo entre o uso convencional de sêmen e o de forma congelada, adotado pela Embrapa Caprinos. Ele cita que o sêmen tanto caprino como ovino pode ser usado fresco, diluído ou não; diluído e resfriado, ou congelado.

Segundo ele, as duas primeiras modalidades, mesmo sem exigirem grandes investimentos financeiros com instalação de laboratórios e implementação de um programa de inseminação artificial, são de uso limitado. "O pouco tempo que a célula espermática mantém o poder fecundante em sua plenitude, é um dos grandes gargalos do processo", garante o pesquisador.

Aurino Simplício ressalta também que essas modalidades convencionais são limitadas e não favorecem o intercâmbio de germoplasma entre regiões, países e, as vezes, "até dentro do próprio País, em função da grande área territorial".

A Embrapa Caprinos dispõe também das unidades de negócios em Sistemas de Produção de Carne e Pele de Caprinos e Ovinos Tropicais; Sistema de Produção de Leite de Cabra; Processamento Industrial do Leite de Cabra; Biotecnologia do Embrião de Caprinos; Consultoria Técnica; e de Serviços Laboratoriais.

O sêmen diluído na água de coco

Com o uso da água de coco como diluidor e conservador de sêmen caprino e ovino, a Embrapa divide com o professor José Nunes Ferreira, da Universidade Estadual do Ceará, a primeira patente biológica do Brasil. De fácil aplicação, o método vem sendo divulgado por ser de baixo custo e porque a água de coco é encontrada em todas as regiões do País.

Segundo o professor José Nunes, que é pesquisador da área de reprodução animal, 70 a 75% dos animais nascidos de inseminação artificial com o uso da água de coco como diluidor, são fêmeas.

Ele explica que para o preparo da solução diluidora é preciso apenas citrato de sódio, água destilada e água de coco, não sendo necessário a lavagem do sêmen coletado. A diluição pode ser feita em nível de campo.


Autor: Oscar Arroyo Barreto y Cristina Matossian de Pardo

Referências bibliográficas: 

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Telefones: 446-8175/ 445-2933. Telefax: 445-4090


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