01/08/2015 às 13h56min - Atualizada em 01/08/2015 às 13h56min

Congresso debate gargalos do setor leiteiro em Porto Alegre

Os principais expoentes da competitividade no setor leiteiro estiveram na pauta do primeiro dia de debates do Congresso Internacional do Leite. A 13ª edição do evento internacional, promovido todos os anos pela Embrapa, acontece pela primeira vez no Rio Grande do Sul. A programação reúne especialistas de países como Holanda, Argentina, Colômbia, Uruguai e Brasil, no Centro de Eventos da Fiergs, em Porto Alegre.

Na manhã de ontem, durante a abertura oficial, o chefe-geral da Embrapa Gado de Leite, Paulo do Carmo Martins, destacou avanços na produção gaúcha na última década. Ele lembrou que no início dos anos 2000, o Rio Grande do Sul representava apenas a quarta melhor produção do País. “Era um estado isolado, com preços locais e comercialização dificultada. Hoje, é a segunda maior produção de leite do País e todas as grandes empresas estão aqui”, comenta.

Entretanto, Martins chama a atenção para os novos desafios. Neste contexto, ele destaca a elevação dos preços das terras e da mão de obra. O fato, segundo ele, também determina uma revisão das atuais tecnologias disponíveis e um foco maior nas avaliações de mercado. “São questões que precisamos resolver com certa urgência e que serão abordadas nos painéis”, antecipa.

O presidente do Instituto Gaúcho do Leite (IGL), Gilberto Piccinini, ao traçar uma radiografia da cadeia no Rio Grande do Sul, identificou novos gargalos. Atualmente, a atividade, que está presente em 467 municípios do Estado – o equivalente a 94% das cidades do Rio Grande do Sul – é exercida por 198 mil produtores. Entre eles, 85 mil entregam o produto para as indústrias instaladas no Estado. Piccinini diz que o giro mensal do capital gerado pelos produtores foi responsável por movimentar 9,3% do PIB gaúcho em 2013.

No entanto, nos últimos dois anos, três indústrias fecharam ou entraram em processo de recuperação judicial. Além disso, no ano passado, cerca de 2,5 mil produtores abandonaram a atividade. Um estudo recente, realizado pela Fetag-RS identificou o risco de que a saída do mercado possa atingir a 30 mil pessoas nos próximos cinco anos, se as atuais condições permanecerem. Isso ocorre, porque o levantamento indica problemas de sucessão familiar em 49% das propriedades rurais gaúchas.

Neste contexto, segundo dados do Sindilat, a produção de leite gaúcha, nos últimos 10 anos (2004-2014), cresceu quase o dobro da brasileira: 103,39% contra 56,72%. No período, a produção gaúcha evoluiu de 2,36 bilhões de litros para 4,8 bilhões de litros, enquanto a brasileira aumentou de 23,5 bilhões de litros para 36,83 bilhões de litros. Por outro lado, o consumo per capita no Brasil apesar de ter avançado de 123,9 litros, em 2000, para 178 litros, cresceu apenas 20%, um ritmo insuficiente para absorver as elevações de produtividade e para fazer frente a países como Uruguai (242 litros), Argentina (203 litros), EUA (257 litros) e Nova Zelândia (300 litros).

O resultado, segundo Piccinini, é a sobra de leite que não encontra saída no mercado. Além disso, problemas logísticos no acesso às propriedades ameaçam a coleta. “Crescimento acelerado da produção sem equivalência no mercado consumidor somado ao aumento das importações do Mercosul dificultam o cenário. A falta de fundamentos qualitativos para acessar mercado externo e a escassez de incentivo para o ampliar as vendas no mercado nacional em pelo menos 20% são outros gargalos setoriais que que precisam ser resolvidas em prazo curto.”
País precisa de eficiência para ampliar o acesso a mercados

Primeiro panelista do congresso, o analista Sênior do Rabobank, o colombiano Andrés Humberto Padilla Villaveces, afirma que apesar da retração dos mercados internacionais, o Brasil pode exercer um papel de destaque em médio prazo. Para isso, é preciso resolver imediatamente os problemas de eficiência que impedem a redução dos custos de produção.

“O leite brasileiro industrializado tem qualidade para concorrer no mercado internacional. O que falta é eficiência para reduzir os custos de produção. Hoje, mesmo com o real bastante desvalorizado, o leite brasileiro não consegue ser competitivo. Por isso, as exportações caíram muito neste primeiro semestre de 2015″, afirma.

Villaveces, que atua na sede da instituição, em São Paulo, identifica um momento de retração puxado pela redução das compras chinesas e russas nos últimos anos. No entanto, o time de analistas internacionais do banco holandês, que possui, atualmente, cerca de ? 20 bilhões em crédito aplicado na cadeia global de leite, identificam uma retomada da demanda internacional em médio prazo. “Quando isso ocorrer, serão poucos os países que terão capacidade para colocar o produto nos mercados. Por isso, entendemos que o Brasil terá um papel importante no futuro, mas precisa melhorar aspectos ligados à competitividade do produto. Nos últimos anos, são poucos acordos negociados para promover este acesso. Isso terá que melhorar”, comenta.

http://jcrs.uol.com.br/site/noticia.php?codn=203744


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