04/12/2018 às 10h40min - Atualizada em 04/12/2018 às 10h40min

Cenário para Leite e Derivados: visão da FAO

EMBRAPA Gado de Leite
Glauco Carvalho e Lucas Campio

No início de dezembro a Food and Agriculture Organization (FAO) divulgou um relatório sobre o mercado de leite e derivados. A equipe do CILeite procurou resumir as principais idéias contidas neste relatório, conforme descrito a seguir. Portanto, a visão aqui apresentada é exclusivamente da FAO não refletindo necessariamente nossa opinião.

Preços de lácteos voltam a subir rapidamente

O índice de preços internacionais de produtos lácteos calculado pela FAO alcançou 209 pontos em novembro de 2009, confirmando uma seqüência de alta que vem ocorrendo nos últimos meses (Fig. 1). Desde fevereiro de 2009, o índice aumentou 82% e todos os produtos lácteos registraram incremento. As altas mais expressivas foram verificadas na manteiga, produto que dobrou seu preço desde fevereiro de 2009, e nos leites em pó desnatado e integral, que registraram aumento de cerca de 90% no mesmo período. Ainda não se sabe exatamente o porquê dessa alta de preços tão expressiva, inclusive pelo fato de ainda haver altos estoques públicos de manteiga e leite em pó na União Européia. No entanto, pelo lado da oferta os fatores apontados pela FAO são a retenção de estoques de leite na Europa, recuo na captação de leite nos Estados Unidos e União Européia e o crescimento da produção da Oceania abaixo do esperado inicialmente. Do lado da demanda, a rápida recuperação de países asiáticos e emergentes pode ter gerado uma pressão nos preços.

Crescimento modesto da produção em 2009

A produção mundial de leite em 2009 deve alcançar 701 milhões de toneladas, registrando um aumento de 1% frente a 2008. Este aumento deve ocorrer principalmente nos países em desenvolvimento, que vem aumentando a produção em ritmo mais acelerado que os países desenvolvidos. Esta diferença de crescimento da produção poderá ser melhor verificada em 2010, já que a previsão é de que os países em desenvolvimento aumentem a produção em 4%, enquanto nos países desenvolvidos a oferta deve se manter relativamente estável. No total, a previsão é de que a produção mundial de leite cresça 2% em 2010, chegando a 714 milhões de toneladas.

Na Ásia, é estimado um aumento de 3% em 2009, sendo produzidos 255 milhões de toneladas. Este incremento será puxado pela Índia e China, que estão entre os maiores produtores mundiais de leite e que foram menos afetados pela crise financeira internacional. Para 2010 a previsão de crescimento da produção de leite na China e Índia é de 9% e 4%, respectivamente.

No caso da América do Norte, o cenário é pior, com expectativa de ligeira queda na produção dos Estados Unidos para 85,5 milhões de toneladas, enquanto o Canadá manterá estável sua produção em 8,3 milhões de toneladas. Em 2010 poderá ocorrer alguma melhora no cenário de produção, já que a relação entre o preço do leite e da ração está se mostrando mais favorável.

Na América do Sul, a produção deve manter-se estagnada em 57,7 milhões de toneladas. Os dois principais produtores de leite do continente, Brasil e Argentina, não devem registrar grandes aumentos em suas produções, parte devido à seca que atingiu parte do continente no final de 2008 e início de 2009. O Brasil deverá manter estável sua produção em 28 milhões de toneladas, mesmo com a melhora do clima nos estados do Sul no final de 2009, enquanto a Argentina deverá registrar aumento de 1%, chegando a 10,4 milhões de toneladas. Se prevalecer um clima favorável no continente, a previsão é de que a produção de leite na América do Sul cresça 2,5 % em 2010.

A Oceania é o continente em que a produção mais irá crescer proporcionalmente em 2009, com um aumento de 6%, chegando a 26 milhões de toneladas. A Nova Zelândia terá um aumento de 8% em sua produção, enquanto a Austrália registrará um crescimento de apenas 2% devido às condições climáticas. Com a previsão de seca em 2009/2010 por causa do fenômeno El Niño, em 2010 está previsto queda de 2% na produção da Austrália e crescimento moderado de 2% na Nova Zelândia.

A África é outro continente que sofreu com a seca recorrente, e por isso deva incrementar apenas 1% em sua produção total, alcançando 36,6 milhões de toneladas em 2009. Para 2010 espera-se um aumento de 2%.

Comércio Internacional

As exportações mundiais de leite em 2009 irão declinar 5%, caindo para 36,8 milhões de toneladas. Apesar de países como a Nova Zelândia e Argentina terem recuperado o volume de exportações, União Européia e Estados Unidos, responsáveis por um terço das exportações mundiais, registraram queda de 3 milhões de toneladas nas vendas para o exterior em 2009. O comércio internacional no início de 2009 não estava atrativo para estes países, por isso preferiram estocar produtos lácteos ou vender para o mercado interno ao invés de transacionar com outros países.

Entre os principais exportadores, a Nova Zelândia deverá expandir suas exportações em 9%, alcançando 11,3 milhões de toneladas. A Argentina irá aumentar suas vendas em 10%, chegando a 1,4 milhão de toneladas de lácteos exportados em 2009. Pelo lado da demanda, o mercado internacional se mostrou desfavorável ao longo deste ano, como reflexo da crise internacional. Até mesmo países caracterizados como importadores, como é o caso da Venezuela, tendem a registrar recuo em seus níveis de importação. Apesar disso, espera-se que em 2010 o comércio internacional de lácteos retome os níveis pré-crise, com crescimento tanto das exportações quanto das importações. O que mais influenciará esta retomada é o comportamento da União Européia e dos Estados Unidos, que são grandes exportadores e suas produções influenciam diretamente nos preços que podem ajudar a alavancar o nível de comércio mundial.

As perspectivas para 2010 são boas para todos os produtos lácteos, já que os níveis de importação e exportação deverão aumentar em praticamente todos os países. As transações de leite integral e leite desnatado deverão aumentar 8% e 3% em 2010, ao passo que as previsões para queijo e manteiga são de 2,4% e 5%, respectivamente (Tabela 1).

Glauco Carvalho - Economista, Pesquisador da Embrapa Gado de Leite - glauco@cnpgl.embrapa.br
Lucas Campio - Estudante de economia da UFJF e Bolsista da Embrapa/CNPq - e-econom@.embrapa.br

Fonte: EMBRAPA Gado de Leite

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