16/02/2017 às 10h45min - Atualizada em 16/02/2017 às 10h45min

Já é hora de direcionar a seleção para a produção de leite A2?

Equipe Técnica Leite Integral

Nenhum produtor pode ignorar as demandas do mercado, especialmente as que estão relacionadas com a saúde do consumidor. Por outro lado, é muito complicado mudar completamente a direção dos programas de seleção genética para atender a estas demandas. Este dilema começa a nortear as discussões de produtores dentro e fora do Brasil.

Embora muita gente do setor ainda não esteja a par do assunto, têm se tornado cada vez mais comuns as discussões sobre o leite A2, dentro e fora do país. Para aqueles que não estão familiarizados com o tema, vou fazer um breve resumo. As beta caseínas compreendem, aproximadamente, 1/4 do total de proteínas do leite. A beta caseína A1 é o tipo mais comum, diferindo em apenas 1 aminoácido da A2, que é considerada a forma mais "natural". Quando as beta caseínas são digeridas, formam-se peptídeos bioativos. Um deles, é o BCM-7 (beta-casomorfina-7), produzido apenas a partir da digestão da beta caseína A1. O BCM-7 possui propriedades semelhantes às dos opioides, que podem afetar indivíduos sensíveis. Estima-se que 25% da população mundial seja sensível ao BCM-7, mas em graus que variam do quase imperceptível ao muito exacerbado.

 

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A hipótese

A comunidade científica ainda não está totalmente de acordo sobre os benefícios do consumo de leite A2, em relação ao A1. Algumas pesquisas mostraram que o consumo de leite A1, por indivíduos sensíveis, poderia desencadear algumas doenças, mas outros trabalhos, bem mais consistentes, provaram não haver nenhuma relação com a ocorrência de quadros como diabetes, doenças cardíacas, autismo e esquizofrenia. O que de fato parece ocorrer, nos indivíduos predispostos que consomem o leite A1, são sintomas semelhantes ao da intolerância à lactose, o que faz com que estes indivíduos deixem de consumir lácteos ou optem por produtos sem lactose, o que, na prática, não traz nenhum efeito benéfico, já que estas pessoas possuem níveis normais de lactase, a enzima que digere a lactose, e cuja deficiência é responsável pelos quadros de intolerância. Uma pesquisa, na qual os participantes não sabiam que tipo de leite estavam ingerindo, confirmou esta hipótese, relacionando o consumo do leite A1 com desconforto gastrointestinal, semelhante ao causado pela intolerância à lacotse. Isso tem encorajado muitos produtores a direcionar seus objetivos de seleção para a produção de leite A2.

Aspectos genéticos

A genética das beta caseínas é diferente, já que não existem genes dominantes ou recessivos. Vacas com duas cópias do gene A1 irão produzir apenas beta caseína A1 em seu leite. Por sua vez, vacas com duas cópias do gene A2, produzirão apenas beta caseína A2 em seu leite. Já as vacas que possuem genes A1, provenientes de um de seus progenitores, e genes A2, vindos do outro progenitor, irão produzir leite com uma mistura das beta caseínas A1 e A2. Por esta razão, as vacas precisam ser homozigotas A2A2 para que seu leite seja considerado A2. Pesquisas realizadas no Brasil mostraram que a raça Gir Leiteiro possui mais de 90% de frequência de alelos A2. Dados mundiais da raça Holandesa, mostram uma frequência de 60% de A2, o que significa que, aproximadamente, 36% das vacas Holandesas produz leite A2, 48% produz leite com uma mistura de A1 e A2, e 16% produz leite A1.

Oportunidades de mercado

Nos Estados Unidos, os lácteos A2 são licenciados e comercializados pela "a2 Milk Company", com sede na Nova Zelândia. A empresa possui a patente do teste para A2 e, por isso, os produtores não podem, simplesmente, testar as suas vacas e vender o leite como sendo A2. Eles precisam firmar um contrato com a "a2 Milk Company" para obter os direitos de licença. Com isso, o leite da empresa vem de vários tipos de fazendas, incluindo grandes rebanhos de gado Holandês, que ordenham as vacas homozigotas A2, separadamente. Por lá, o leite A2 é vendido por valor similar ao do orgânico. Os esforços de marketing da "a2 Milk Company", nos EUA, começaram no ano passado, mas já vêm sendo desenvolvidos na Austrália e Nova Zelândia por mais de uma década. Na Austrália, o A2 já representa 9% das vendas de lácteos, que são dominadas pelo leite fluido.

Fonte: Revista Leite Integral

 

E agora, José?

Nenhum produtor pode ignorar as demandas do mercado, especialmente as que estão relacionadas com a saúde do consumidor. Por outro lado, é muito complicado mudar completamente a direção dos programas de seleção genética para atender à estas demandas. Segundo Chad Dechow, professor de genética de gado de leite da Penn State University, nos EUA, "existem dois pontos a serem considerados na decisão sobre a ênfase a ser dada ao genótipo A2. O primeiro deles, é se você está ou espera estar no curto prazo no mercado de leite A2. Se a resposta é sim, a decisão é fácil. Passe a usar, exclusivamente, touros homozigotos A2", pontua. Ainda segundo ele, "a questão mais difícil é saber se o leite A2 irá se tornar uma realidade de mercado, ao invés de uma exceção. Nós temos visto isso acontecer com o leite livre de BST, em várias partes do país. Eu acredito que isso irá ocorrer se mais resultados de pesquisa confirmarem os efeitos benéficos do leite A2. O desafio é que não podemos, simplesmente, tornar todas as nossas vacas A2, pois o processo de seleção leva tempo. Por estas razões, eu acredito que devemos considerar o A2 em nossos programas de seleção. Eu não acho que seja necessário eliminar todas as possibilidades de uso de touros A1. Porém, se dois touros forem semelhantes para as características que eu dou mais valor, e um deles for A2, ele será o escolhido. Se você aumentar progressivamente a frequência de A2 no seu rebanho, irá sentir menos os impactos caso o mercado de leite tome essa direção no futuro", pondera Chad. Independentemente dos rumos que o mercado tomará nos próximos anos, o A2 deve representar uma mudança na nossa visão da qualidade do leite. Ao invés de pensarmos apenas na avaliação bruta dos sólidos e na produtividade, precisamos começar a considerar as novas demandas do mercado consumidor, que estão cada vez mais relacionadas à qualidade dos nutrientes, especialmente proteína e gordura, e aos benefícios que os lácteos podem trazer para a saúde e o bem-estar.

 


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