27/09/2014 às 14h16min - Atualizada em 27/09/2014 às 14h16min

Brasil no Contexto Internacional - Setor Lácteo

O setor lácteo brasileiro tem sofrido grandes transformações, sobretudo na estrutura da indústria. Grandes investimentos foram realizados (últimos quatro anos), e novas empresas entraram neste mercado. O processo de consolidação setorial encontra-se em curso, por meio de aquisição de empresas ou fusões. O setor cooperativista também está se movimentando na busca de economia de escala e no aumento do poder de barganha junto aos setores a montante e a jusante.

De maneira geral, estruturas de mercado mais concentradas e/ou elevadas barreiras à entrada proporcionam maior poder econômico. Nessa linha, verificou-se na última década um acelerado processo de concentração no setor supermercadista brasileiro, seja por meio da aquisição de empresas menores (e incorporação de lojas), seja por meio da abertura de novas lojas. Isso acabou proporcionando elevado poder de mercado das grandes redes e redução nos custos de negociação e de propaganda.

Dentro do universo das empresas com dois ou mais check-outs – que pelo critério da Associação Brasileira de Supermercados (Abras) são consideradas supermercados – a participação das cinco maiores empresas no faturamento das trezentas maiores saltou de 37% em 1994 para 62% em 2008. As dez maiores respondem por 69% do faturamento total.

Esse movimento de concentração e consolidação dos grandes varejistas no mercado nacional tem um impacto direto na cadeia produtiva do leite, à medida que os supermercados se destacam como o principal canal de distribuição de produtos alimentícios. O maior impacto ocorre nos pequenos laticínios, que não possuem escala de produção nem força suficiente para negociar com as grandes redes varejistas. Além disso, a indústria precisa custear também os gastos de promoção, espaços em gôndolas, taxas para inclusão de novos produtos/marcas etc.

Ao analisar comparativamente o grau de concentração entre os elos da cadeia produtiva do leite, verifica-se que o setor de transformação ainda está distante da consolidação observada no comércio varejista. No caso da produção primária, o processo é mais distante ainda. Enquanto as cinco principais redes de varejo faturam 62% do setor, os cinco maiores laticínios captam 33% do leite brasileiro, e os cinco maiores produtores ofertam apenas 0,4% do leite nacional sob inspeção.

A indústria brasileira de laticínios também tem caminhado no sentido da consolidação setorial e criação de grandes grupos empresariais, buscando fortalecer seu poder de negociação, além de ganhar em escala. Alguns exemplos dessa consolidação são percebidos:

 


  • Na recente fusão entre Sadia e Perdigão, criando a Brasil Foods;

  • O grupo GP Investimentos fechou no último mês de março um acordo para formação de um consórcio entre seu laticínio Leitbom e as empresas Glória e Ibituruna, pertencentes à Laep, controladora da Parmalat;

  • O laticínio Bom Gosto, que se fundiu com a Líder Alimentos, adquiriu inúmeras outras empresas;

  • O Frigorífico Bertin comprou a Vigor e foi incorporado pelo JBS Friboi;

  • Encontra-se também em curso a união de cinco grandes cooperativas, representadas pela Itambé, Centroleite, Confepar, Cemil e Minas Leite


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Essa é apenas uma amostra das transformações recentes na estrutura industrial do setor. Mas a questão é: no âmbito mundial da indústria de laticínios, como está o posicionamento do Brasil em termos de concentração?

Segundo levantamento realizado pelo International Farm Comparison Network (IFCN), a Fonterra ocupa o topo da lista dos grandes captadores mundiais de leite, com um volume total de 18,6 milhões de toneladas/ano. Em seguida, destacam-se a Dairy Farmers of America e a Nestlé. O levantamento é um pouco diferente daquele realizado pelo Rabobank, que considera o indicador de venda de lácteos em valores monetários. Neste caso a Nestlé aparece no topo da lista.

Em termos de concentração de mercado, verifica-se que a maior empresa responde por 2,7% da produção mundial de leite e por 4,6% do leite captado. No caso das sete maiores, essas participações sobem para 12% e 21%, respectivamente. Por fim, as 21 maiores processadoras mundiais captam 36% do leite mundial, volume equivalente a 21% da produção global.

O processo de concentração é bastante variado entre os países, sendo mais intenso no Uruguai, na Bélgica e em Israel, onde cinco empresas captam todo o leite comercializado no país. Considerando apenas a maior empresa, verifica-se uma participação na captação superior a 80% no Uruguai, na Islândia, Finlândia, Noruega, Dinamarca e Nova Zelândia. Além disso, dos 64 países analisados, em 40 deles a participação de cinco empresas é superior a 50% nos respectivos mercados.

No Brasil, a participação das cinco maiores empresas na produção total é de 33% em relação ao leite inspecionado. Portanto, o Brasil ocupa a posição 51 no grupo de países analisados, indicando que, apesar do processo de consolidação vivenciado no mercado doméstico, ainda se trata de um setor pouco concentrado em relação aos padrões mundiais, caracterizando como uma estrutura fragmentada.

A fragmentação na indústria brasileira de laticínios gera uma guerra brutal na captação de leite, sobretudo em momentos de oferta restrita. Essa concorrência por produtores de leite acaba provocando, frequentemente, incremento de volatilidade nos preços ao produtor, seja para cima ou para baixo. Além disso, o custo de administração desse processo é muito alto, gerando desgastes excessivos nas empresas.

Uma consolidação moderada poderá trazer alguns benefícios para o Brasil, inclusive possibilitando uma maior inserção internacional. Uma das características do comércio mundial de commodities é que a competição ocorre via preço. Para tanto, a escala de produção é fator determinante nessa disputa, além da competitividade em custo na matéria-prima.

O processo de consolidação também cria condições para que os fornecedores (produtores de leite) absorvam maior parcela do preço final do produto, ao passo que os consumidores tendem a pagar um pouco mais. No entanto, a relação é mais evidente no primeiro caso. Isso se deve ao fato de que uma maior concentração melhora a escala de produção da indústria, reduz o custo de transação na captação de leite e fortalece seu posicionamento frente ao varejista, possibilitando maior repasse ao longo da cadeia.

Obviamente, uma consolidação na indústria de laticínios movimenta toda a cadeia produtiva, tornando-a mais exigente, principalmente, com o produtor de leite. Aspectos como qualidade da matéria-prima e práticas sustentáveis no processo de produção tendem a ser eliminatórios na captação. É importante para o produtor buscar tecnologias mais competitivas e tornar-se mais fiel às empresas que compram seu leite, criando uma relação de parceria que engloba ônus e bônus. É fundamental também o fortalecimento de associações e cooperativas.

Por fim, cabe ressaltar que este movimento de concentração ao longo da cadeia produtiva do leite tende a conti-nuar, mas é importante buscar margens equilibradas ao longo da cadeia. A produção de leite no Brasil, acima de tudo, é uma questão social, pois existem cerca de 1,3 milhão de produtores conforme o último censo agropecuário do IBGE. Portanto, são na grande maioria pequenos empresários rurais, tomadores de preço e cujas famílias vivem da renda gerada na atividade.

 

 




Autor: Glauco Rodrigues Carvalho1; Clesiane de Oliveira2

Referências bibliográficas: 

1. Economista e pesquisador da Embrapa Gado de Leite - glauco@cnpgl.embrapa.br 2. Professora da Universidade Federal de Juiz de Fora e do Instituto Vianna Júnior


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