21/04/2014 às 12h30min - Atualizada em 21/04/2014 às 12h30min

A democratização do alimento natural

Antes restrito a um público de nicho, o consumo de alimentos naturais cresce cerca de 20% ao ano, na esteira da busca de saúde e bem estar

 

A alimentação ocupa espaço central nas preocupações da sociedade. A segurança alimentar, ou seja, a capacidade de prover a sociedade atual e as futuras gerações com o alimento adequado, se junta à busca por uma alimentação saudável, já que os excessos de uma alimentação rica em gorduras e açúcares ficam evidentes hoje com os crescentes problemas de saúde em todo o mundo.

 

Essa busca por uma alimentação saudável está na base da evolução do mercado de produtos naturais e orgânicos, cujo consumo vem se ampliando a olhos vistos, como se observa no aumento do espaço reservado nos supermercados para estes itens. Apesar de não haver estatísticas oficiais, a estimativa é de que o mercado de produtos orgânicos e naturais cresça uma média de 20% ao ano, segundo estudos de redes varejistas.

 

A revista eEmbanews entrevistou Alexandre Borges, presidente da Mãe Terra, para conhecer de perto este mercado. Seu sonho: democratizar o consumo de produtos orgânicos e naturais no Brasil, ampliando o acesso a esses produtos, tanto pelo preço como pela melhor distribuição. A Mãe Terra nasceu em 1979, em um nicho ainda alternativo, e foi pioneira nesse mercado, mantendo-se fiel a sua essência de produto natural e saudável em todos estes anos. Alexandre Borges assumiu a Mãe Terra em 2008, e trouxe consigo sua vocação empreendedora e sua paixão pela natureza. Ele vem de uma trajetória bem sucedida: fundou a Flores Online e a empresa de relações públicas Significativa, ambos negócios bem sucedidos, posteriormente vendidos. Sua conexão com a natureza vem da infância, ele cresceu em Bragança paulista, em meio a horta e jardins. Mas a experiência que o marcou profundamente foi em sua estada nos Estados Unidos, período em que trabalhou na Mastercard, logo que se formou. Lá conheceu o supermercado natural Whole Foods, uma referência mundial no segmento de produtos naturais. Ficou impressionado e quis conhecer esse mercado mais de perto. Arrumou um emprego lá para trabalhar à noite. Voltando ao Brasil, abriu outros negócios, pois este ainda era um mercado incipiente. Em 2008, decidiu que era a hora de retornar seu sonho e assumiu a Mãe Terra. Antônio Borges cursou administração na FGV e hoje dá aulas no curso de empreendedorismo de novos negócios, focado na formação de empreendedores. É também o presidente da Abrasos – Associação Brasil Orgânico e Sustentável. Entre outras ações, a entidade fechou um acordo com o Governo Federal para divulgar o consumo de produtos orgânicos e sustentáveis durante a Copa do Mundo.

 

A Mão Terra tem 200 funcionários diretos e outros 100 indiretos. Possui um porfólio com cerca de 130 SKUs e lança por volta de 3 a 4 famílias de produtos por anos. Sua produção atinge mais de um milhão de pacotes por mês, e também vai para o setor de food serviçe, que atende restaurantes, hotéis, e também as cozinhas de empresas, um segmento que está em pleno crescimento.

 

Embanews: Está havendo uma mudança na maneira como as pessoas estão lidando com a alimentação. Como você vê isso?

 

Alexandre Borges: Depois da 2ª Guerra Mundial, houve um desenvolvimento muito grande da engenharia de alimentos. Havia o desafio logístico de levar alimentos perecíveis para os soldados nos campos de batalha. Foi quando surgiram os conservantes e estabilizantes. Depois que a guerra passou, isso foi absorvido pelas indústrias de alimentos, e possibilitou a formação dos grandes grupos, que foram substituindo os produtos naturais por químicos, porque aumentam a validade dos produtos e são mais baratos. É só olhar para os rótulos dos produtos: é tudo artificial, e mais barato também. Mas as pessoas viram que começam a adoecer, a apresentar problemas crônicos de saúde, obesidade, diabetes, etc. Tudo isso é um reflexo da mudança de alimentação dos últimos 40 a 50 anos.

 

Embanews: Como vê esse momento para o mercado de produtos naturais e orgânicos no Brasil?

 

Alexandre Borges: Estamos surfando uma onda muito positiva. As pessoas começam a entender que a saúde não é só curativa, ir ao médico e tomar remédio, é ter também uma visão preventiva. Os próprios médicos estão revendo o conceito de saúde, que começa na alimentação. Não estamos reinventando nada. Sempre acreditei nisso e para mim a Mãe Terra é mais do que um trabalho, é uma causa também: democratizar o acesso a produtos naturais e orgânicos para muito mais pessoas, e levá-las a uma transformação nos hábitos de consumo. Isso tem atraído muitos talentos para cá. Eu assumi a empresa, motivado em grande parte pelo meu sonho e visão, e desde então ela vem crescendo a taxas superiores às do mercado. Em 2013, devemos crescer 40%. Basta olhar o espaço nas gôndolas, que vem aumentando. Para o varejista, é um produto que reúne valor agregado e alto giro, o que é tudo que ele quer. Diferentemente de alguns anos atrás, em que este era um produto de nicho, hoje vendemos na periferia do Pará. Seu consumo não está mais restrito às classes de alta renda. Hoje todos os programas de TV falam sobre o assunto, as pessoas estão preocupadas e estão procurando opções saudáveis.

 

 “Meu sonho é ampliar o acesso aos produtos orgânicos e naturais, tanto pelo preço como pela melhor distribuição”

 

 

 

Embanews: Você fez um trabalho de reposicionamento da marca ao assumir a empresa?

 

Alexandre Borges: Sim, fizemos um trabalho de branding, focado principalmente na embalagem, que é o principal meio de tangibilizar o branding, ampliando o nosso público. O trabalho inicial foi feito pela Dezing com Z, e hoje estamos com uma agência in house. O grande objetivo do reposicionamento foi fazer uma embalagem que não perdesse a essência do natural, e dialogasse com o grande público, sem se tornar “ecochata”. Somos adeptos da sustentabilidade sem sacrifícios. Queremos falar não apenas com o público “natureba”, mas com aquele que come churrasco e está experimentando a marca pela primeira vez; com as mulheres, que estão inseridas no mercado de trabalho e as pessoas que não têm tempo para cozinhar, e buscam a conveniência dos produtos de pronto consumo.

 

 

 

Embanews: Quais são os produtos que agregam inovações?

 

Alexandre Borges: Eu escolhi os ícones do junk food para inovar. Lançamos o lámen integral, orgânico, sem aquele sache de glutamato, que pode ser preparado em 5 minutos, e atender a questão da conveniência. Trouxemos o primeiro salgadinho orgânico integral assado para crianças, único aprovado nas escolhas. E apresentamos ainda a mais completa linha de cookies orgânicos e integrais para o café e o lanche, entre outros produtos. Um dos lançamentos mais recentes é o Remix, snak natural de bolso, em versão monodose, que combinam cereais e frutas secas e está sendo um verdadeiro sucesso. Cada vez mais o produto saudável tem o desafio de fazer bem às pessoas e ser gostoso.

 

Embanews: Para a Mãe Terra, de que maneira produzir alimentos naturais e orgânicos se relaciona a uma atuação sustentável?

 

Alexandre Borges: O fato de não incluirmos químicos ou agrotóxicos nos produtos já nos coloca como empresa sustentável. Nós fomos premiados duas vezes como a empresa de alimentos mais sustentável do Brasil pela Greenbest. Temos o programa Pensando Bem, que rastreia e faz um diagnóstico do nosso impacto ambiental na cadeia de valor, desde a origem, na produção dos insumos da agricultura e beneficiamento dos grãos, à fabricação do produto e distribuição, até os resíduos. O impacto é medido em relação ao consumo de energia e de água, geração de resíduos, o impacto na biodiversidade, uso do solo. A partir do diagnóstico, que é muito complexo, criamos um plano de ação para realizar melhorias. Nós privilegiamos a agricultura de pequeno porte, sempre que possível, e temos uma parceria com o MDA – Ministério de Desenvolvimento Agrário, que cuida da agricultura familiar, que não é necessariamente orgânica, mas vem de um pequeno produtor. É um trabalho que exige um grande esforço, pois esbarra muitas vezes na falta de prazo e qualidade, pois somos muito focados em qualidade, e temos uma equipe de controle de qualidade que cuida do rastreamento, dos laudos e testes.

 

Embanews: E a sustentabilidade em relação à embalagem?

 

Alexandre Borges: A Mãe Terra, apesar de ser uma empresa de produtos naturais, ainda tem desafios quanto à sustentabilidade, pois causamos impacto. Por isso, nos esforçamos para fazer a nossa parte. As ações que envolvem a embalagem hoje se concentram na busca de opções sustentáveis. Nas nossas embalagens de cartão damos preferência ao papel certificado pelo FSC. Estamos estudando a substituição de plásticos por biopolímeros. Eu sempre digo que a sustentabilidade é um cobertor curto. Ainda não fomos convencidos de que os biopolímeros sejam a melhor alternativa, pois acho a questão dos resíduos das embalagens um dos maiores desafios para a humanidade resolver.

 

 “Eu escolhi os ícones de junk food para inovar”

 

Embanews: Quais são as maiores dificuldades para atuar no mercado de orgânicos e naturais e trazer inovações?

 

Alexandre Borges: É bastante complicado desenvolver produtos dentro da nossa carta de princípios. Os ingredientes naturais não estão disponíveis no mercado. As indústrias de ingredientes estão estruturadas para atender a produção de ingredientes químicos que são muito mais baratos. Para desenvolvermos o salgadinho de pizza, o Pizzo, não encontramos o aroma natural de pizza, tivemos que desenvolver desde o tomate orgânico, o manjericão orgânico, etc. Todos estes ingredientes são então moídos em forma de pó, mas as máquinas existentes não estão preparadas para processar produtos em pó, que entopem nas máquinas. Tivemos que importar um moinho de pedra dos Estados Unidos para fazer a farinha integral orgânica para os nossos cookies, porque não existia no mercado. Isso cria um nível de criticidade elevado, pois há dificuldades ao longo de toda cadeia. Lá fora essa indústria já alcançou escala, viabilizou soluções  e estruturou fornecedores, diferentemente de nossa situação, o que dificulta o desenvolvimento de novos produtos. Temos um pipeline forte de inovação, mas grande parte não se torna realidade, devido a todas as dificuldades. Mesmo assim, os produtos que lançamos nos últimos quatro anos representam 70% das nossas vendas, enquanto os produtos commodities, de preparo culinário, e ingredientes representam 30% das vendas.

 

Embanews: Há investimentos programados?

 

Alexandre Borges: Temos investimentos constantes na parte fabril, em compras de máquinas da Itália e do Brasil. Hoje mais de 90% da produção é verticalizada, e uma pequena parte é terceirizada. Mas 100% dos nossos produtos têm pelo menos uma etapa feita internamente. Para nós, é vital controlarmos uma parte significativa da cadeia, para garantir a qualidade. Também estamos investindo forte em distribuição e na estruturação de equipes regionais por todo o Brasil. Hoje temos mais de 100 representantes com equipe própria em todos os estados do Brasil, sem exceção.

 

Embanews: E como estão evoluindo as exportações?


Alexandre Borges: Hoje exportamos para Angola e outros países africanos e Portugal. As oportunidades no mercado interno, porém, são tão amplas, que não tivemos ainda a chance de trabalhar novos mercados, mas já estive nos Estados Unidos para conhecer o mercado e avaliar novas possibilidades para o futuro. 


Autor: Elizabeth Keiko Sinzato

Referências bibliográficas: 

Fonte: Revista Embanews
Fevereiro de 2014


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