11/08/2010 às 13h11min - Atualizada em 11/08/2010 às 13h11min

Alergia a alimento é mais rara do que parece

Irene Ruberti
http://www1.folha.uol.com.br/fsp/saude/sd1805201001.htm

Pesquisa americana mostra que 30% da população acredita ter o problema, mas só 5% dos casos são confirmados. Intoxicação e intolerância têm sintomas confundidos com a doença; ovo e leite são os itens que mais causam reações em crianças.

Na busca por um culpado para explicar indisposições digestivas recorrentes ou incômodos na pele, tornou-se comum atribuir o problema a algum tipo de alergia alimentar.

Mas as reações indesejadas a comida são menos comuns do que se pensa. "Poucos casos são confirmados depois de feita a avaliação alérgica", diz a médica Ariana Campos Yang, coordenadora do Ambulatório de Alergia Alimentar do Hospital das Clínicas de São Paulo.

Uma das razões para explicar a "paranoia" com a alergia alimentar é que muitas vezes se confunde a doença com intolerância ou intoxicação, porque os sintomas são parecidos.A médica do HC conta que recebe muitos idosos que se queixam de coceira na pele e, por conta própria, tiram alimentos da dieta atrás do vilão que causa o incômodo.

"Mas a coceira é provocada pela pele seca, comum em idosos, e um hidratante acaba resolvendo todas as "alergias alimentares" de que se queixam."Embora muitas pessoas acreditem sofrer de alergia alimentar sem de fato ter o problema, casos reais demoram a ser diagnosticados porque os pacientes relutam em procurar o médico.

"O paciente vai retirando alimentos da dieta e se automedica com antialérgicos", diz Yang.

Para o vice-presidente da Asbai (Associação Brasileira de Alergia e Imunopatologia), Fabio Morato Castro, os casos de alergia estão aumentando. "Há mais pessoas com o problema e com alergia a novos alimentos, como frutas tropicais."

A explicação para o fenômeno não está definida, mas pode estar ligada a novos hábitos alimentares e ao uso de remédios.

As crianças têm mais alergia, principalmente ao leite e ao ovo. Entre adultos, os crustáceos são os que mais provocam reações, ao lado do trigo, da soja e do amendoim. Em muitos casos, a rejeição ao alimento desaparece na fase adulta.

Há um mês, o menino Gabriel, de 2 anos e 5 meses, começou a se coçar enquanto comia macarronada. Ele estava com o rosto, as mãos e os braços lambuzados de molho.

A mãe, a blogueira Thelma Torrecilha, limpou-o e notou que a pele estava vermelha onde havia molho. Uma semana depois, a comprovação: ao comer uma rodela de tomate com as mãos a vermelhidão voltou.

Ele comia tomate desde os seis meses, mas foi pelo contato com a pele que ficou alérgico.

"Ele gosta muito de tomate, então, agora, ninguém mais come aqui em casa", diz Thelma.

No caso de Gabriel, a tendência é que o problema suma com o tempo. Mas o inverso também ocorre: quem nunca apresentou problemas com um alimento começa a ter reações.



Investigação

"Ainda não está esclarecida a razão pela qual a pessoa perde a tolerância a um determinado alimento", diz a coordenadora do ambulatório da HC.

Uso de remédios que mudam o pH do estômago e doenças no intestino estão entre os fatores que desencadeiam a doença.

Para identificar o que está causando mal ao paciente, o especialista começa a investigação com um questionário do histórico médico, que indica os principais alimentos suspeitos.

Para reduzir as possibilidades, é feito o exame de sangue, que identifica proteínas específicas, ou o teste na pele. Nesse teste, são colocadas gotas do extrato do alimento em contato com o paciente. Se houver anticorpo, ocorre uma reação local.

O segundo passo é tirar o alimento da dieta e acompanhar o comportamento da pessoa.

Se ainda houver dúvida, o especilista faz a chamada provocação oral: o alimento suspeito é oferecido em cápsula ou diluído ao paciente, com acompanhamento médico.

Para que o resultado não seja influenciado, é dado o alimento e um placebo. Nem médico nem paciente sabem qual é o verdadeiro.

"Um erro que se comete quando há a comprovação do alimento que provoca alergia é tirá-lo do cardápio e esquecer de dar ao paciente os nutrientes necessários", alerta Castro, vice-presidente da Asbai.

"No caso do leite, por exemplo, é preciso achar outras fonte de cálcio." 



Obs: Foto: O menino Gabriel, de 2 anos e 5 meses, que tem alergia a tomate, posa brincando com o prato do vegetal em sua casa, em SP . Foto: Leticia Moreira/Folha Imagem




 

Referências bibliográficas: 

 


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